23 de nov de 2007

Reflexões sobre a vida intelectual

-invariavelmente adotamos alguma idéia ou teoria sobre um assunto que nos interessa, sem nunca podermos ter certeza, no entanto, se aquelas idéias são mesmo as corretas. A busca por esta certeza é cansativa e improdutiva

-só nos resta, através da reflexão, rever, sempre que possível, a factibilidade das idéias que defendemos. Ao mesmo tempo, precisamos aprofundar nossas impressões sobre um determinado assunto. Há um trade-off entre a verificação de todas as opiniões possíveis sobre um assunto e o aprofundamento das conseqüências de se aderir a uma determinada opinião(as idéias secundárias que acabamos formando por conta de nossa adesão).

-sempre devemos deixar um brecha para podermos rever nossas opiniões sobre um determinado assunto. E como existe um custo em ler todas as opiniões sobre um assunto, basta-nos reservar, entre nossas leituras, pelo menos uma que nos desafie por completo.

-para alcançar tal objetivo, basta selecionarmos melhor o que lemos. Antes de tudo, qualidade. Devemos trocar opiniões coincidentes que possuem baixo valor por opiniões discordantes de valor mais elevado.

Há um paralelo no mundo da música pop(ular) que serve para ilustrar o meu ponto. É humanamente impossível gostar de todos os estilos musicais ao mesmo tempo sem manifestar uma predileção por um determinado estilo. Mesmo que não seja uma predileção consciente, ela se manifesta na escolha do indivíduo ao ouvir um determinado artista em detrimento de outro. Ao ouvir um volume maior de música, o indivíduo pode proceder de duas formas: ou ouvir mais daquilo que já ouve e gosta, ou explorar outros estilos que desconhece ou que até hoje não conseguiu admirar. Por outro lado, não parece sensato que ele escute aleatoriamente novas músicas, visto que já possui um gosto formado e que exige refinamento(refinamento, contudo, que pode indicar um fechamento a novas experiências musicais). A melhor forma de proceder seria, portanto, continuar refinando seu gosto ao mesmo tempo em que abre uma brecha para novas experiências musicais que poderão servir para rever seu gosto musical.

Comentando comentário

Reginaldo Almedia, do blog linkado ao lado Abulafia, escreveu:

"Acho que este tema das drogas pode ser um pouco mais complexo que simplesmente jogá-lo na vala comum do livre arbítrio."

Sim, por isso eu passei a distinguir 3 motivações que podem justificar a proibição das vendas, ao invés de apontar apenas uma delas, que é essencialmente anti-liberal, a motivação paternalista.

"Se as drogas fossem legalizadas, a única coisa que ia acontecer é o que hoje já acontece com os cigarros, haveria um mercado paralelo que sonega impostos e qualidade."

Não sei muito a respeito do mercado de cigarros, mas é possível que continue a existir um mercado paralelo, no entanto com um poder mais reduzido em comparação com o atual.

"No particular do livre-arbítrio, penso que qualquer droga ilícita, exceto quem sabe a maconha, exerce um efeito deletério no indivíduo, ao ponto de o mesmo se tornar uma ameaça à sociedade."

Aqui estão, juntas, as 2 razões não-paternalistas para se restringir o uso de drogas: o indivíduo perderia o controle da sua própria vida e passaria a prejudicar os próximos; o indivíduo, perdendo o controle, passaria a violar os direitos das outras pessoas. Não analisei estas justificativas no texto anterior, mas pretendo discutí-las no futuro. O meu ponto, no entanto, é que estas razões não são compatíveis com certa culpabilização do usuário que é evocada de maneira recorrente no debate sobre drogas.

"Você concorda que se tivéssemos menos drogados teriamos uma sociedade melhor (independente do crime associado ao comércio de drogas ilícitas)?"

Provavelmente, mas precisaria fazer algumas considerações sobre os limites éticos para a busca desta sociedade. De qualquer forma, a questão é que a atual proibição das drogas falha em diminuir o consumo de drogas, além de gerar efeitos colaterais perversos. Pesquisas apontam que o consumo de drogas vem crescendo ano a ano.

"E o que fazer com as crianças? Muitos se tornam viciados quando ainda não possuem discernimento. Ok, sabemos que isso também ocorre com o cigarro e o álcool, mas ambos ainda são um caminho que possui um certo retorno, coisa que as drogas não são."

Eu diria que a força policial que hoje se encontra dispersa tentando reprimir toda e qualquer venda de drogas poderia se concentrar, simplesmente, na repressão a venda para as crianças. Pode-se argumentar que o acesso das crianças se tornaria mais fácil do que é hoje, mas não sei se esta argumentação seria convincente, visto que este é um alvo preferencial dos traficantes. Acredito que seja até possível que menos crianças passassem a usar. Hoje, o grande incentivo dos traficantes é alimentar o vício para que futuros adultos se tornem consumidores recorrentes. É uma espécie de 'investimento' em consumo futuro. Se este consumo passar a ser, em grande parte, absorvido futuramente por empresas legais, o incentivo para aliciar crianças vai cair.

Em futuros textos espero tratar das 2 outras razões normalmente apresentadas para reprimir a venda de drogas.



18 de nov de 2007

Comentando comentário

Um certo anônimo comentou no post anterior(agora não se pode mais comentar como anônimo neste blog, apenas para avisar):

"Quer dizer que o cara que toma cerveja não é responsável pela existência da Ambev? Que a fábrica tá lá de sacanagem?

Quer dizer que adora refrigerante não é responsável pela existência da Coca Cola?

Quanta lógica!"

Bem, eu escrevi sobre isso, meu caro: "O usuário pode ser responsabilizado pela existência de oferta de drogas, mas ele não é o responsável pelo fato dessa oferta ser feita, de maneira predominante, por marginais."

Enfim, eu concordo com você.

"É claro que as drogas só existem por que alguém as usa! É mercado, pombas! E um mercado bem robusto, porque nunca falta mercadoria!"

Nunca neguei isso. Mas há escassez de mercadoria sim, senão não haveria preço.

"Usem o que vocês quiserem (basicamente, só defende usuário quem usa)."

Esta é uma falácia argumentativa.

"Mas não me venha quem usa dizer que desafia o "sistema". Desafia o cacete! É tão capitalista quanto qualquer outro! E mais: mostra a supremacia do mercado sobre o estado que controla a produção!"

Não sei em qual momento eu disse que desafio o 'sistema'. No máximo, eu desafio a legislação vigente.