30 de dez de 2006

A crítica da oportunidade - parte 2

Como tentei colocar no final do post anterior, não acredito que se possa garantir uma igualdade de oportunidade, apenas a ausência de impedimentos para que o indivíduo possa ocupar uma determinada posição na sociedade. Ou seja, devemos entender a questão da oportunidade como uma tentativa de garantir a maior mobilidade social possível.

E como fazer isso? Em primeiro lugar, os impedimentos legais devem todos ser abolidos. Com isso não quero dizer que qualquer pessoa possa ocupar qualquer posição. Mas sim com que, se existirem restrições para que se exerça uma determinada atividade, que sejam baseadas em critérios que qualquer um seja capaz de se adequar aos mesmos. Por exemplo, se eu proibo uma criança de 10 anos de trabalhar, essa é uma restrição que vale para todo e qualquer indivíduo, pois todos são potencialmente capazes de ultrapassar a idade de 10 anos e ingressar no mercado de trabalho. Mesmo a exigência de qualificações técnicas para o exercício de determinadas atividades ainda possibilita a qualquer indivíduo que, se comprovada a sua capacitação, de exercer aquela atividade. Reconheço que essa é uma área polêmica, mas afirmo sem medo de que exigências técnicas devem ter como objetivo evitar que certos problemas persistam, e não restringir o número de pessoas legalmente permitidas a exercer aquela ocupação.

A questão é saber até que ponto o indivíduo pode modificar a situação na qual se encontra. Um menor de idade, por exemplo, pode não receber nenhuma educação porque seus pais simplesmente não fizeram uma poupança para financiar seus estudos. Portanto, apesar de ele ser livre de direito para ocupar qualquer posição na sociedade, ele é restrito de fato pelas suas incapacidades. O mesmo vale também para uma criança que sofreu com uma série de doenças e falta de alimento, pode vir a ser fisicamente limitada. Notem que sempre falo em princípios negativos, a saber, de considerar inaceitável a situação na qual o indivíduo se encontra, sem dizer em que situação específica ele deveria se encontrar. A ação governamental, no caso, sempre se dá sem determinar o resultado final da interação entre os indivíduos, mas sim, dado o resultado das interações, em eliminar ou resolver um estado de coisas considerado problemático.

Garantir que todos sejam alfabetizados nada nos diz sobre a qualidade específica da educação de cada um; combater a fome e a subnutrição não nos revela se existem crianças mais saudáveis do que outras. O ideal igualitário que está por trás da igualdade de oportunidades não pode ser realizado, apenas o ideal de igualmente privar os indivíduos de certas adversidades. Seria melhor, portanto, falar em termos de igualdade contra a adversidade do que da igualdade de oportunidade.

29 de dez de 2006

A crítica da oportunidade - parte 1

Se a crítica marxista leva à rejeição absoluta do capitalismo, as críticas da discriminação e da oportunidade podem inspirar medidas reformistas, sem que o modelo capitalista precise ser abandonado. O problema é que os objetivos pretendidos são inalcansáveis e, na luta por realizá-los, pode-se acabar destruindo as próprias bases do capitalismo.

A crítica da oportunidade aceita o funcionamento da economia capitalista, mas rejeita a situação na qual nem todos possuem a mesma oportunidade na hora de disputar o seu papel com outros. Uma competição na qual nem todos os competidores largam do mesmo ponto de partida seria injusta.

Quando perguntado se o Estado poderia garantir a igualdade de oportunidade, Hayek mostrou-se cético e colocou uma questão fundamental: a oportunidade que o Estado oferece pode ser igual, mas isso não significa que a oportunidade final dos indivíduos será a mesma. Ou seja, a busca pela igualdade de oportunidades só pode alcançar a garantia de uma oportunidade igual mínima.

Por exemplo, ao garantirmos que todos numa determinada sociedade sejam alfabetizados, não significa que todos estarão igualmente qualificados em sua educação, mas sim que todos estarão iguais num determinado aspecto, o de serem alfabetizados.

Não que essa oportunidade mínima seja desprezível. Principalmente se imaginarmos que, em certas situações, existem impedimentos objetivos(fricções) que atrapalham a mobilidade social. Um indivíduo analfabeto, por exemplo, é objetivamente incapaz de exercer uma série de atividades. Sim, é verdade que todos nós somos objetivamente incapazes de exercer uma série de profissões. A questão é saber até que ponto nós podemos contornar essa situação em nossas vidas através de nossas escolhas, ou se nossas escolhas estão limitadas por essa situação.
O problema da crítica marxista

O grande problema da crítica marxista, na minha opinião, é que ela foca demais no fato de que a lei da propriedade beneficia apenas aqueles que possuem os meios de produção, ao mesmo tempo que ignora o fato de que QUALQUER UM possui a chance de atingir, algum dia, essa posição. É diferente, por exemplo, de uma sociedade de castas ou escravocrata. A questão é que essa mobilidade social se realiza apenas no longo prazo, e no curto prazo a impressão é de uma sociedade rígida. Por isso a crítica atual ao capitalismo se refere mais ao questionamento se REALMENTE qualquer um pode atingir uma posição melhor na sociedade, ou se essa é uma promessa não cumprida do capitalismo.

Um dos problemas da crítica à mobilidade no capitalismo é que a mesma ignora que a posição social, pelo menos no capitalismo, é sempre referencial. Ora, se alguém em posição inferior ultrapassa outro que está em posição superior, este passa a estar em posição inferior. O que quero dizer com isso? Simples: se todos que estão em posição inferior ultrapassarem os que estão em posição superior, isso não acaba com a existência de posições inferiores e superiores na sociedade. Num sentido ideal, a sociedade capitalista funciona de tal forma que é impossível prever a posição final do indivíduo numa dada sociedade. Mas, como dito anteriormente, isso se realiza apenas no longo prazo, sendo que muitas vezes o prazo é tão longo que ultrapassa a vida do indivíduo. Poderíamos qualificar as sociedades capitalistas de acordo com o seu grau de mobilidade, a saber, de acordo com a possibilidade de ascensão social de um determinado indivíduo. É preciso distinguir, no entanto, entre probabilidade menor que 1 de ascender socialmente e probabilidade zero de ascender, que é a situação existente nas sociedades de castas e escravistas*.

*mesmo nas sociedades escravistas há a possibilidade ascensão social, mas se dá mais no sentido do indivíduo deixar de ser escravo, sem que os indivíduos livres corram risco de se tornar um. Ou seja, a asecensão de um não indica a queda de outro. Nas sociedades de castas a situação é inversa: o indivíduo não pode subir de uma casta inferior para uma superior, mas pode decair. Só que sua decadência não significa o progresso de outro.
A crítica marxista

Continuando o tema do post anterior, faço um breve comentário da posição marxista, que não tinha percebido até então. Marx não é contrário, em tese, à noção de propriedade. É justamente o oposto, sua luta se dá em defesa da propriedade, a saber, da idéia de que o indivíduo é dono legítimo do resultado de seu trabalho. Para Marx, a propriedade dos meios de produção é uma garantia legal para a exploração capitalista, pois o trabalhador não seria remunerado de acordo com o que produziu, mas receberia menos. Por isso a propriedade, não em sentido geral, mas apenas dos meios de produção, deveria ser abolida, para por fim à exploração. É importante perceber que, no pensamento marxista, a noção de disparidade das riquezas é absolutamente marginal, pois não importa o tamanho do fosso entre o lucro dos donos do capital e o salário recebido pelos trabalhadores, mas sim que a mera existência dessa relação constitui, logicamente, um caso de exploração.

O problema do pensamento marxista é que o mesmo se baseia numa teoria equivocada, a saber, a de que a quantidade de trabalho empregada para produzir um bem determina o seu valor. Mas há um problema ainda maior: mesmo supondo que os meios de produção pertençam aos trabalhadores, teria que existir uma decisão final de como esses meios deveriam ser empregados. Uma casta administrativa teria que substituir o conjunto dos capitalistas.

28 de dez de 2006

A(s) mentalidade(s) anti-capitalista(s)

Sempre gostei de Política. Não dessa politicazinha, com p minúsculo, a política partidária de mera disputa pelo poder. Mas da Filosofia Política, que lida com as idéias e instituições que caracterizam o que somos e o que podemos ser enquanto sociedade. É essa Política que, incidentalmente, fornece os argumentos com os quais a politicazinha nossa de cada dia é jogada.

Por isso a crítica das idéias é tão importante. O marxismo, por exemplo, passou quase 50 anos na quase absoluta irrelevância até que se tornasse o paradigma de uma era. O mesmo ocorreu, em menor escala, com o PT. Alguns podem ter sido surpreendidos com a vitória de Lula em 2002 e sua conseqüente reeleição em 2006. Tentarão explicar o seu sucesso devido à falta de informação dos eleitores(como se em alguma eleição os eleitores tivessem informação perfeita), ao uso político do Bolsa-Família(como se ele não tivesse ganho em todas as faixas de renda), ou à ignorância do povo(como se não tivesse apoio considerável no meio universitário). A verdade é que o PT levou a eleição por representar idéias que são dominantes na sociedade brasileira. Os fatores apontados anteriormente são marginais, pois não explicam a ascensão do partido nos últimos 20 e pouco anos.

Mas para criticar uma idéia é preciso, antes de tudo, entendê-la. E nada mais confuso do que o uso do termo capitalismo, de significação distinta para uma série de pessoas. E cuja rejeição se baseia nos mais variados argumentos, muitas vezes contraditórios entre si. Listo, a seguir, as críticas, totais ou reformistas, mais comuns ao capitalismo, para posterior crítica nesse blog. A minha exposição se dará nos termos comumente usados pelas pessoas que argumentam dessa forma, não significando que eu concorde com as colocações feitas a seguir.

1-a crítica marxista: para Marx, o valor de um bem é determinado pela quantidade de trabalho empregada para produzí-lo. No processo de produção capitalista, é dito pelos economistas burgueses que o indivíduo é remunerado de acordo com a produtividade do seu trabalho, em contraste com os sistemas anteriores nos quais existiam uma série de restrições à livre iniciativa. Mas, na verdade, esse sistema é baseado na exploração, pois para produzir é necessário possuir os meios pelos quais se produz(capital), e estes são detidos apenas por uma pequena parte da sociedade. O trabalhador, portanto, vende livremente sua mão de obra para o dono do capital, que não trabalha e mesmo assim possui uma remuneração final, chamada de mais-valia, que é auferida pelo fato de não se remunerar todo o trabalho feito, mas sim em pagar menos do que aquele trabalho vale. Somente quando os meios de produção pertencerem aos trabalhadores, a exploração chegará a um fim.

2-a crítica da discriminação: no capitalismo, o indivíduo é remunerado de acordo com a produtividade do seu trabalho, segundo os economistas burgueses. Mas, na verdade, uma série de fatores influenciam na remuneração. Mesmo dois indivíduos capazes de executar o mesmo trabalho com a mesma eficácia acabam por receber remunerações distintas. Isso ocorre porque há um processo de discriminação contra negros, homossexuais, mulheres, etc que reflete a cultura daquela sociedade. Portanto, mesmo que não exista uma discriminação oficial, a mesma está presente no mercado de trabalho.

3-a crítica da oportunidade: o problema do capitalismo está no fato de que, apesar do indivíduo ser remunerado de acordo com a produtividade do seu trabalho, essa produtividade é determinada apenas em parte pelo esforço do indivíduo, já que algumas pessoas tiveram oportunidade de aprender a ler, conhecer outras línguas, cursar uma universidade, etc, enquanto outras não viveram num ambiente propício para desenvolver suas capacidades. Quando essas pessoas competem por um emprego, portanto, a seleção reflete a distinção do ponto de partida.

4-a crítica dos valores: o grande problema do capitalismo é que os valores morais, antes absolutos, passam a ser julgados em termos monetários, ou seja, dependendo do retorno que determinada atividade possa dar, o indivíduo aceitará roubar, matar, enganar, se prostituir, etc. A busca pela recompensa material incentiva o comportamento imoral.

5-a crítica do consumismo: o problema do capitalismo é que os indivíduos deixam de pensar no seu próprio bem estar e gastam seus recursos com futilidades, influenciados pela propaganda das empresas.

6-a crítica da eficiência: o problema do capitalismo está no fato de que os recursos que poderiam ser usados para produzir bens de maior qualidade são desperdiçados em aspectos simbólicos. Ou seja, a alocação de recursos não produz um resultado objetivamente eficiente(um tênis de uma marca famosa que custa 200 reais a mais que um outro tênis de mesma qualidade), apenas subjetivamente.

7-a crítica da desigualdade: no capitalismo os recursos são alocados de maneira eficiente, mas são desigualmente distribuídos.

fraca: Se essa desigualdade for muito grande, haverá uma formação de classes no sentido marxista do termo, provocando a falência do capitalismo. É preciso, portanto, distribuir os recursos(principalmente renda) de tal forma que a demanda pela revolução não aconteça.


forte: somente o socialismo é capaz de distribuir os recursos com igualdade

8-a crítica do convencionalismo: é verdade que no capitalismo o desejo dos consumidores é satisfeito. Mas isso impede com que verdadeiros artistas, cujas obras não são populares, sejam financiados e produzam. O mesmo ocorre com a ciência, que não avança devido ao fato das empresas só se interessarem pela área aplicada e não pelo desenvolvimento da ciência pura. Por isso, para garantir a existência da arte e do progresso científico, o governo deve intervir.


Para os leitores: vocês lembram de mais alguma crítica anti-capitalista?

26 de dez de 2006

História das idéias e contexto

Um dos motivos pelos quais eu tenho bastante receio em ler análises históricas é o descuido com que muitos historiadores, pensadores e jornalistas contextualizam os acontecimentos. A análise factual transforma-se em mera retórica que tenta provar um ponto, uma causa. É o problema das explicações ad hoc, que podemos popularmente traduzir como desculpas. Por isso traço, aqui, um panorama do desenvolvimento histórico que pode servir como base para a contextualização dos acontecimentos e das idéias importantes para as ciências sociais.

-o desenvolvimento da ciência estatística: apesar do mau uso que muitas vezes é feito dos dados, a fartura de indicadores é muito melhor do que a sua falta. Os pensadores políticos do passado possuíam, a sua disposição, dados rarefeitos e imprecisos. Precisavam, portanto, utilizar a imaginação e conjecturas arriscadas para suas análises da dinâmica social e dos problemas da ordem e da administração pública. Não que as conjecturas arriscadas tenham desaparecido do horizonte, na verdade eu diria que só o risco de erro torna uma teoria interessante. A diferença está no fato de que, hoje, devido à possibilidade de acompanhar o desenvolvimento de certas variáveis, o processo de refutação e o conseqüente aprimoramento de uma teoria é muito mais imediato. Por isso os pensadores mais antigos parecem tão dogmáticos e com idéias arbitrárias, quando na verdade faltavam para eles os dados necessários para que pudessem mudar de idéia e se aproximarem de uma maior convergência. No caso das ciências naturais, por exemplo, a ampliação da capacidade de observação que o desenvolvimento de instrumentos como microscópio e telescópio trouxe foi, sem dúvida, importante para o surgimento de novas e melhores teorias.

-a ampliação do universo intelectual: esse movimento se deu basicamente de duas formas. Por um lado, o número de pessoas que se engajam em atividades intelectuais, numa dada sociedade, aumentou de maneira considerável. Por outro, o contato intelectual entre diferentes sociedades passou a ser mais rotineiro, devido às melhoras dos meios de comunicação e da rede de transporte. A possibilidade de alguém nos prevenir de um movimento equivocado é muito maior hoje do que antigamente, e podemos nos aproveitar dos resultados das pesquisas de outras pessoas quando anteriormente precisaríamos, nós mesmos, desenvolver aquela pesquisa.
Projetos para o novo ano

História do pensamento filosófico: pré-socráticos, Platão, Aristóteles, Cícero, Aquino, Hobbes, Bacon, Descartes, Spinoza, Locke, Leibniz, Berkeley, Hume, Kant, Hegel, Schopenhauer, Marx, Nietzsche, Stuart Mill, Bertrand Russell, Wittgenstein, Carnap, Quine, Popper

História do pensamento econômico: o legado dos antigos, os últimos escolásticos, a escola fisiocrata, a escola clássica inglesa, os economistas franceses do século XIX, a Revolução Marginalista(Jevons, Menger, Walras), a escola austríaca, Marshall + Pigou, Pareto, Keynes, os keynesianos radicais(Robinson, Sraffa), Samuelson, Milton Friedman, Gary Becker, Coase, public choice(Tullock, Buchanan, Olson)

E mais: Kelsen, Bobbio, Dworkin, Rawls, Nozick, Elster, Cohen

25 de dez de 2006

The Byrds - Turn Turn Turn (1965)


To every thing, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time to every purpose under heaven

A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

To everything, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time to every purpose under heaven

A time to build up, a time to break down
A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones
A time to gather stones together

To everything, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time to every purpose under heaven

A time of love, a time of hate
A time of war, a time of peace
A time you may embrace
A time to refrain from embracing

To everything, turn, turn, turn
There is a season, turn, turn, turn
And a time to every purpose under heaven

A time to gain, a time to lose
A time to rend, a time to sew
A time to love, a time to hate
A time for peace, I swear it's not too late

22 de dez de 2006

Aviso

Este blog entra num pequeno recesso e volta a ser atualizado na terça-feira. Na volta, trarei algumas novidades. Aguardem.

20 de dez de 2006

A sabedoria de Milton Friedman

"Insofar as the government has information not generally available about the merits or demerits of the items we ingest or the activities we engage in, let it give us the information. But let it leave us free to choose what chances we want to take with our own lives.(ênfase minha)"

19 de dez de 2006

Ainda imóveis - agora um outro problema

O André deixou no ar a suposição de que a rede de transporte define a ocupação urbana, e não o oposto. Eu não consegui imaginar uma situação específica na qual isso aconteça, mas o Claudio Avolio nos traz informações direto do Rio:

"Um exemplo claro, principalmente entre a classe média, é o caso do metrô. Os imóveis no Rio de Janeiro, onde o tempo para se deslocar está cada vez maior, que estão localizados próximo ao metrô são bem mais valorizados que os mais afastados. Isso vale para bairros como Botafogo e Tijuca principalmente. Como o preço do imóvel dispara (ao ponto de um apto de 2 qts e +/- 100 m2 custar algo em torno de 300 mil), acaba concentrando uma parcela da classe média mais "endinheirada" nessas regiões. Quando uma região acumula atrativos cobiçados pela população local, os imóveis sobem de preço e conseqüentemente espanta os mais pobres."

O André tinha escrito:

"Por exemplo, até a Revolução Industrial os pobres preferiam morar no entorno das cidades, para ficarem próximos das oficinas em que trabalhavam, enquanto a aristocracia se concentrava no centro."

E parece que os pobres ainda preferem morar perto das "oficinas". Podemos explicar a expansão das favelas sob esse prisma. Se esses pobres habitassem a região da Baixada Fluminense, o tempo que demorariam para se deslocar até o seu local de trabalho seria tão grande que talvez compense para eles morar perto do trabalho, ainda que precariamente(e morar na Baixada é tão ou mais precário que morar em certas favelas). Se o transporte público funcionasse de maneira mais eficiente(e aqui entra o argumento do André), talvez eles pudessem optar por morar mais longe. Isso, claro, acompanhado de uma melhora do fornecimento de serviços públicos na Baixada Fluminense.

E, claro, essas regiões distantes são evitadas pelos mais ricos, que podem morar de maneira razoavelmente confortável e relativamente próxima do trabalho(mesmo quando optam em morar longe, os ricos atraem serviços e atividades econômicas que se instalam ao redor de sua clientela). Apesar de que, como o Claudio aponta, o transporte público tem se tornado um problema tão sério que até mesmo a população de maior poder aquisitivo tem sofrido com ele.

Mas o que é morar "perto" do trabalho numa cidade de grande porte? Como isso funciona em outras cidades fora do Brasil? Existe "solução" para o problema do transporte público?
Economia e o resto II

Gregory Mankiw responde a seguinte pergunta de um professor: aprender economia torna a pessoa mais conservadora*?

"I believe the answer is, to some degree, yes. My experience is that many students find that their views become somewhat more conservative after studying economics. There are at least three, related reasons.

First, in some cases, students start off with utopian views of public policy, where a benevolent government can fix all problems. One of the first lessons of economics is that life is full of tradeoffs. That insight, completely absorbed, makes many utopian visions less attractive. Once you recognize, for example, that there is a tradeoff between equality and efficiency, as economist Arthur Okun famously noted, many public policy decisions become harder.

Second, some of the striking insights of economics make one more respectful of the market as a mechanism for coordinating a society. Because market participants are motivated by self-interest, a person might naturally be suspect of market-based societies. But after learning about the gains from trade, the invisible hand, and the efficiency of market equilibrium, one starts to approach the market with a degree of admiration and, indeed, awe.

Third, the study of actual public policy makes students recognize that political reality often deviates from their idealistic hopes. Much income redistribution, for example, is aimed not toward the needy but toward those with political clout. This Dave Barry column, which is reprinted in Chapter 22 of my favorite economics textbook, describes a good example.

For these three reasons, many students in introductory economics courses become more conservative--or, to be precise, more classically liberal--than they began. Nonetheless, studying economics does not by itself determine one's political ideology. I know good economists who are distinctly right of center and good economists who are distinctly left of center. In my department at Harvard, I would guess that Democrats outnumber Republicans among the faculty (although there is surely more political balance in the economics department than in most other departments at the university)."

O post original, com os pertinentes comentários, pode ser lido aqui.

*conservador, aqui, possui o sentido de defender, em linhas gerais, os princípios básicos do liberalismo econômico. Historicamente, isso se explica pelo fato do progressismo, nos EUA, se indentificar com o movimento reformista ocorrido no final do século XIX, que questionava as bases do pensamento econômico clássico, considerado "inadequado" e "insuficiente" para tratar de um mundo que havia se modificado bastante nas últimas décadas. Apesar do foco ser a reforma econômica, o progressismo também invadiu a área do direito, com os sucessivos ataques sofridos pelo constitucionalismo estrito.
Mais uma resposta?

O blogueiro André Kenji oferece uma outra resposta para a disposição geográfica das cidades:

"Há diversos pontos que explicam isso. Em grande parte ricos sim tentam se afastar dos pobres(em parte por segurança), mas há outras questões, como acesso a serviços públicos e facilidades de logística.

Por exemplo, até a Revolução Industrial os pobres preferiam morar no entorno das cidades, para ficarem próximos das oficinas em que trabalhavam, enquanto a aristocracia se concentrava no centro.

Com o advento do automóvel, muitos ricos iriam para subúrbios. Na verdade, o padrão é mais que social. No Rio isso é dificil de aferir por quê quem pode mora do lado da praia, e os pobres se contentam com a periferia, mas em São Paulo, por exemplo, se repete a tendência americana de famílias procurarem subúrbios(Como Itu e Jundiaí), casais e solteiros ricos bairros de fácil acesso nas regiões centrais enquanto os pobres e a classe média mais baixa o entorno da CPTM e a Zona leste.

O livro Crabgress Frontier, de Kenneth Jackson é uma boa abordagem do assunto, apesar de ser bastante esquerdinha. ; )

Minha tese é que a rede de transportes que define a ocupação urbana, não o contrário. "

Como se dá a migração intra-urbana em busca por segurança? Eu pensei num modelo razoavelmente simples. Imaginemos uma sociedade na qual não exista crime. E, mesmo que exista, são crimes passionais que, por serem esporádicos, são de difícil previsão de que quando ocorrerrão e, portanto, não se pode fazer muito para evitá-los. Não importa muito, portanto, o local no qual os indivíduos moram. Nessa cidade, ricos e pobres moram misturados(não há problema de bens públicos além da segurança). Vamos supor que uma atividade criminosa seja iniciada. Certamente, esses criminosos terão uma limitação geográfica, delimitando sua área de atuação(da mesma forma que uma atividade econômica qualquer).

Ora, diante dessa violência, os ricos, justamente por possuírem mais recursos, são capazes de dispor desses recursos para se afastarem das áreas consideradas violentas, enquanto os pobres, que possuem recursos limitados, dificilmente conseguirão se afastar das áreas mais violentas. E essa violência provoca uma bola de neve: o roubo é como se fosse um custo adicional com o qual os agentes econômicos precisam lidar, e isso pesará nas suas decisões produtivas. A região decai economicamente, tornando-se mais pobre por causa da atividade parasitária do crime.

É como se a atividade criminosa destrutiva, portanto, afastasse os indivíduos mais produtivos e mais ricos daquela região, fazendo com que habitem naquela área apenas as pessoas mais pobres e condenando essa região a uma pobreza rotineira.

Sobre a evolução histórica das cidades, conheço pouco a respeito, mas esta possui uma serventia limitada, pois só nos orienta para saber como que as coisas evoluíram até então. A disposição passada não pode nos explicar a persistência de uma determinada disposição no presente e nem como esta disposição pode se apresentar no futuro.

Sobre a tese da rede de transportes definir a ocupação urbana, não consigo ver como isso pode provocar uma divisão geográfica mais ou menos uniforme por renda.

18 de dez de 2006

Pobreza: absoluta e relativa

Na minha tentativa de jogar menos calor e mais luz no debate político, discuto agora o conceito de pobreza. E devemos observar um princípio que, se óbvio, quando revelado, torna-se obscuro se subentendido. O conceito de pobreza é relativo.

O conceito de pobreza é relativo porque, para existir uma pessoa pobre, é preciso que exista alguém que seja considerado rico. Se todos possuíssem o mesmo bem estar material, o conceito de pobreza não poderia ser aplicado. É preciso, portanto, que exista uma desigualdade de bem estar. Querer acabar com a pobreza significa querer acabar com a desigualdade de bem estar, ou seja, significa querer acabar com a riqueza. A única forma de acabar, em definitivo, com a pobreza, é destruindo a prosperidade que gera a riqueza.

Existe, no entanto, uma outra forma de entender a pobreza, que é desenvolver um conceito absoluto da mesma. Ou seja, enumerar uma série de atributos do bem estar que estão razoavelmente bem distribuídos entre os membros numa dada sociedade, mas que não são acessíveis a todos.

Por exemplo, é um hábito em nossa sociedade tomar banho pelo menos uma vez ao dia, por questões de higiene. Aqueles que não possuem os recursos necessários para o banho diário podem ser considerados pobres. Normalmente usamos uma roupa diferente por dia, e as lavamos antes de as usarmos novamente. Mas nem todos podem fazer isso. A grande maioria da população tem acesso à energia elétrica, o que a torna capaz de utilizar uma série de utensílios domésticos como geladeira, televisão, computador, etc. Mas aqueles que não possuem acesso à energia elétrica ficam excluídos do uso desses bens.

Pode acontecer, e muitas vezes isso ocorre, de uma sociedade ser absolutamente mais pobre do que a outra, pelo fato de todos os membros daquela sociedade não possuírem acesso aos bens existentes nas sociedades mais prósperas. Há, portanto, dois tipos de desigualdade: uma desigualdade entre sociedades e uma desigualdade dentro da mesma sociedade. Se trabalharmos com os conceitos de pobreza relativa e absoluta, é possível que uma sociedade materialmente mais desenvolvida não possua nenhum pobre absoluto mas, pelo fato de persistir a desigualdade de riquezas, a pobreza relativa se perpetue, podendo até mesmo aumentar.

Há uma grande diferença entre combater a pobreza relativa e a pobreza absoluta. Para combater a pobreza absoluta, a sociedade possui um objetivo, normalmente negativo e, dessa forma, a sua ação positiva pode ser objetivamente avaliada. Por exemplo, a erradicação do analfabetismo pode ser verificada pela porcentagem da população que permanece analfabeta. O mesmo se pode dizer quanto à persistência de determinadas doenças, o acesso ao saneamento básico, a mortalidade infantil, capacidade de utilizar a energia elétrica, etc. Já o combate à pobreza relativa não possui um objetivo, pois é inerente de uma sociedade com divisão do trabalho relativamente desenvolvida. Sempre existirão pobres e ricos, a não ser que todos se tornem pobres.

É por isso que venho acompanhando com certa surpresa o debate que ocorre atualmente nos EUA, a saber, a preocupação com o aumento da desigualdade de renda, medida pelo índice Gini. Não é que tenha surgido, nos últimos anos, um problema social grave que possa ser relacionado com a pobreza. Não se discute nenhum índice específico de bem estar que tenha piorado nos EUA. Ao contrário, até mesmo os índices de violência americanos, considerados altos quando comparados aos de outros países desenvolvidos, estão em seus níveis mais baixos desde os anos 60. O que se está discutindo? Que algumas pessoas enriqueceram mais do que outras, sem que isso tenha afetado, de maneira direta, nenhum aspecto do bem estar dos outros que enriqueceram menos.

Será que a desigualdade de renda, pura e simples, importa tanto assim? Não deveríamos focar mais em erradicar certos problemas, como o analfabetismo, doenças diversas, falta de saneamento básico, que custam relativamente tão pouco para que sejam combatidos? Certamente esses gastos não provocariam uma mudança muito grande na pobreza relativa. Mas, sem dúvida, tiraria uma parte considerável da população da pobreza absoluta.

17 de dez de 2006

Mortalidade infantil no Brasil

Mortalidade infantil

Segundo a Wikipedia: "For the world, and for both Less Developed Countries (LDCs) and More Developed Countries (MDC) IMR declined significantly between 1960 and 2001. World infant mortality rate declined from 198 in 1960 to 83 in 2001."

Nota: mortes por 1000 nascimentos.
Uma resposta?

O blogueiro Claudio Avolio fez o seguinte comentário, muito interessante por sinal, no post anterior:

"Com a deterioração da qualidade dos serviços públicos (segurança, transporte, limpeza urbana, etc.), somente os bairros mais nobres, cujos moradores possuem maior influência política, mantiveram um mínimo de qualidade nesses serviços. Isso faz com que aqueles que viviam nos bairros mais modestos mas que tinham um condição econômica melhorzinha se esforçassem para se mudar para os bairros nobres. Esse surto de demanda explicaria o boom dos valores dos imóveis nas áreas nobres. Nos bairros mais modestos só ficou quem não podia sair de lá.

Com uma condição melhor para fazer negócios, os bares, restaurantes e comércio procuram se estabelecer nas áreas nobres o que faz com que essas áreas se tornem mais interessantes para o indivíduo de alta renda. E o ciclo virtuoso (ou vicioso) se mantém como no célebre caso tostines.

Fora isso, acho que não podemos deixar de lado o fator status, muito forte na nossa sociedade. Conheço muita gente que chega ao final do mês sem um tostão para morar em Ipanema ou Leblon.

Resumindo, acho que é um conjunto de fatores:

1) Menos piores serviços públicos básicos
2) Maior presença de comércio
3) Status

Mas essa opinião baseia-se apenas na observação do cotidiano do Rio de Janeiro."

Quem tiver outra experiência de cidade grande para contar, é bem vindo. E, dentre todos os serviços públicos listados, o mais importante, sem dúvida, é o de segurança. Se alguém tiver o trabalho de sobrepor os mapas de violência e distribuição geográfica por renda, a correlação é bastante forte. Muitas vezes a parte mais difícil de morar num bairro nobre não é nem comprar o imóvel, mas pagar o condomínio. É como se através do condomínio o indivíduo fosse obrigado a pagar para sustentar o fornecimento privado desse bem público(1) que é a segurança. Como não é possível excluir de maneira perfeita o consumo do bem público por parte de quem não o paga, esses serviços privados acabam por elevar o preço dos terrenos próximos(a busca por segurança é uma parte importante da demanda). Tanto que a expansão de áreas pobres violentas ao redor dos bairros que reúnem as pessoas de maior poder aquisitivo leva a uma desvalorização considerável desses imóveis.

Quanto ao status, ele acaba sendo um elemento diferenciador entre as pessoas que já moram nesses bairros mais conceituados. Por exemplo, eu moro num bairro de Niterói que possui um certo status. Mas eu não moro na praia desse bairro. Praia que se encontra, inclusive, bastante poluída e imprópria para o banho. Mesmo assim, se eu quiser caminhar e ver a praia, não demoro mais que 10 minutos para chegar nela. E o preço que se acresce pelo fato de se morar em frente à praia é bastante considerável. E eu tenho acesso aos mesmos serviços de comércio e lazer que essas pessoas (mesmo o meu acesso à praia é praticamente igual), os serviços públicos oferecidos não conseguem ser diferenciados. Não tenho dúvida que o status de morar naquela parte específica do bairro tem um peso enorme no preço final do imóvel. Se não for o caso, vai gostar assim de vista pro mar lá na...

(1)na definição de Paul Samuelson: [goods] which all enjoy in common in the sense that each individual's consumption of such a good leads to no subtractions from any other individual's consumption of that good. Por exemplo, se existe um serviço de segurança para um corredor de um andar, mesmo que a intenção seja proteger apenas um apartamento, os outros apartamentos acabam sendo protegidos. O desafio para garantir o fornecimento do bem público é saber se é possível cobrar de todos os que consomem aquele bem(a cobrança de condomínio parece solucionar esse problema).

Se não é possível excluir ninguém do consumo desses bens, então o chamamos de bem público puro. Por exemplo, se você protege as fronteiras de um país, todos os que pertencem àquele país se beneficiam desse serviço, não dá para excluir ninguém do seu consumo. Se os impostos fossem facultativos, algumas pessoas que consumiriram o bem público puro poderiam optar por não pagar por ele, já que os outros arcariam com todos os custos e elas consumiriam do mesmo jeito. Mas isso é outra discussão que não cabe aqui.

16 de dez de 2006

Uma questão que gostaria de ver, algum dia, respondida

Sempre me surpreendi com a distribuição populacional das cidades. Parece existir um padrão recorrente no fato das pessoas serem dispostas geograficamente de acordo com a sua renda. Uma hipótese mais simples afirmaria que ocorre uma reedição de suposta luta de classes: os ricos não gostam dos pobres, ponto final. Mesmo assim, talvez uma parte desses ricos não nutrisse esse tipo de antipatia e não se importasse em ter como vizinho uma pessoa pobre. Poderia existir uma correlação forte, mas não uma correlação quase perfeita entre renda e geografia, como ocorre atualmente. Será que existe uma razão efetiva?

Claro, alguém poderia responder que se deve aos preços dos imóveis. Mas o preço desses imóveis já não estariam associados com o fato da demanda por aquela área ser formada basicamente por pessoas de alto poder aquisitivo? O que devemos responder é porque as pessoas mais ricas optam em morar na mesma área, ao invés de alguém com poder aquisitivo morar num bairro meia boca.

Qualquer outra explicação, como por exemplo acesso a lazer e bens de luxo, pressupõe que os ricos habitem aquela área. Precisamos responder: por que os ricos se concentraram por lá e não se espalharam pela cidade? Será simplesmente por que são amiguinhos e gostam de conviver? Quem tiver uma explicação, pode me avisar.
Mais Brasil

Expectativa de vida no Brasil ultrapassa os 70 anos


A expectativa média de vida do brasileiro nascido em 2004 subiu para 71,7 anos, um acréscimo de 4 meses e 24 dias em relação aos nascidos em 2003. Nos últimos 25 anos, o aumento foi de 9,1 anos, passando de 62,6 anos em 1980 para os atuais 71,7 anos(ênfase minha). O avanço médio foi de cerca de 5 meses por ano, de acordo com a Tábua de Vida 2004, divulgada, no Rio de Janeiro, pelo IBGE.

Os números escondem desigualdades e desvendam a ausência de um planejamento público de longo prazo. Quase 10 anos de vida separam crianças do mesmo sexo nascidas em 2004 no Distrito Federal (líder), com expectativa de vida de 74,6 anos, e em Alagoas, estado que ocupa o último lugar nos índices de expectativa de vida, com 65,5 anos. Se o recém-nascido de Brasília for uma menina e o bebê alagoano for do sexo masculino a diferença em termos de expectativa de vida chega a 17 anos.

Mas, em 1980, a diferença em termos de expectativa de vida entre o Rio Grande do Sul, o mais bem colocado (com 67,8 anos) e a mesma Alagoas, a última colocada também naquele ano, era de 12,1 anos. Significa que a expectativa de vida do alagoano cresceu 9,8 anos no período 1980-2004, índice superior à própria média nacional (9,1 anos)(ênfase minha).

O crescimento mais acentuado das regiões Norte e Nordeste, justamente as que possuem os piores índices de expectativa de vida, que mais contribuíram para o aumento da média nacional.

Por regiões, o Sul mantém a liderança na esperança de vida ao nascer para ambos os sexos, com Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ocupando a 2ª e 3ª posições por estados. Na média, a expectativa de vida no Sul ficou em 73,9 anos em 2004.

No Sudeste, com expectativa de vida de 73,2 anos, Minas Gerais (73,8 anos) e São Paulo (73,4 anos) tiveram os melhores desempenhos, cabendo ao Rio a pior colocação na região (72,1 anos) e a 11º colocação no ranking nacional. Beneficiado pelo bom desempenho do Distrito Federal, o Centro-Oeste aparece em terceiro lugar no ranking regional (72,9 anos). O Norte (70,7 anos) e o Nordeste (68,6 anos) completam a relação de expectativa de vida ao nascer para homens e mulheres.

Os números revelam diferenças significativas quando as comparações levam em conta o sexo e a idade do brasileiro. Em 1980, homens viviam em média 6,1 anos menos do que as mulheres. Em 2004, a diferença subiu para 7,6 anos, na média nacional, chegando a 9 anos no Rio (67,7 anos para homens e 76,7 anos para as mulheres), a maior diferença da pesquisa. Por estados, 10 posições separam homens e mulheres no Rio quanto às estimativas de vida ao nascer (16º melhor índice masculino e a 6ª colocação no caso das mulheres).

O fenômeno observado no Rio ocorre no Ceará, com diferença de 8,8 anos nas estimativas de vida entre homens e mulheres, e em São Paulo, que ocupa a nona colocação na esperança de vida para homens (69,2 anos) e a quarta melhor posição no ranking para as mulheres (77,8 anos), com uma diferença de 8,6 anos na estimativa de vida entre os sexos opostos.

15 de dez de 2006

Heterodoxia

Diego Navarro em boa reflexão sobre o lugar do pensamento heterodoxo, no debate público e na academia.
Distribuição proporcional da população por cor ou raça



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obs: o último percentual de pardos
é de 44,96%, e não 34,96%
Tendência do analfabetismo


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Breve história do voto

Só é possível entender os movimentos políticos dos últimos 200 anos se tivermos consciência de que a nossa atual democracia é uma conquista recente, e que no passado a situação era bastante distinta.

-----Reino Unido:


-----Estados Unidos:

13 de dez de 2006

Qual o ponto?

Freqüentemente eu ouço lamentações do tipo "se as pessoas se preocupassem mais, fossem bem informadas, etc...nós não teríamos esse problema x". Sim, talvez seja realmente verdade, mas essa não é uma boa abordagem. Veja bem, é um FATO que as pessoas não se preocupam tanto e não são bem informadas. O que fazer para solucionar o problema X DADO esse estado de coisas que queremos solucionar? O economista gosta de pensar em termos de incentivos. Ele ACEITA, do ponto de vista teórico, que as pessoas se comportam da forma que se comportam. O que não significa que ele RECOMENDE que as pessoas ajam dessa forma. Mas se elas agissem da forma que o economista recomenda, não existiria problema em primeiro lugar. E então voltamos ao começo de tudo. Como fazer com que as pessoas se comportem da maneira que queremos que elas se comportem?(1)

Um dos fundamentos da mentalidade anti-capitalista se baseia justamente no fato de que o capitalista(o dono do capital) não necessariamente(2) intenciona o bem estar do consumidor nem do trabalhador. Claro, isso pode gerar uma série de conflitos, que serão resolvidos não pela exigência que o empresário "pense com mais cuidado em seus funcionários". Mas que se criem incentivos para que os empresários resolvam possíveis conflitos que as suas atividades podem provocar quando confrontadas com as atitudes de trabalhadores e consumidores. Muitas vezes o próprio mercado oferece esses incentivos, outras não. Só não é uma boa abordagem acabar com os acidentes de trânsito banindo os carros.

(1)Essa frase pode soar, à primeira vista, meio totalitária, mas na verdade nós queremos que as pessoas se comportem de outra forma para que problemas sejam resolvidos. Isso não significa que a solução não entrará em conflito com outros valores que consideramos tão importantes ou até mesmo mais. Somente se acreditarmos que não existe problema algum é que tal tipo de raciocínio torna-se repulsivo.

(2)eis a confusão acerca do pressuposto egoísta das ciências econômicas: não é que o economista acredite que o indivíduo aja sempre pensando apenas no seu bem estar, mas sim que os indivíduos nem sempre agem pensando no bem estar do próximo. É mais fácil pensar o segundo caso como uma possibilidade do primeiro. Além disso, modelar o comportamento individual como se o indivíduo pensasse predominantemente no bem estar do próximo esbarra no fato de que o bem estar que desejamos para o próximo nem sempre coincide com o bem estar que o próximo deseja para si mesmo. Portanto, mesmo numa economia solidária emerge o conflito.
Uma sugestão de reforma

Seria tão absurdo vincular o reajuste das pessoas que ocupam cargos públicos não negociáveis no mercado(deputados, juízes, vereadores, ministros, etc) à renda per capita nacional? Existiria algum tipo de problema numa medida como essa? Aceito contribuições.



















Produto Interno Bruto dos Municípios 2004
Fontes: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais; IBGE, Diretoria de Geociências, Coordenação de Geografia.

12 de dez de 2006

Um exemplo que se encaixa no texto anterior

Numa entrevista com Amartya Sen, o indiano afirma: " We are beginning to have a world community, and economic contact has partly contributed to that. It's also the case that economic opportunity opened up by economic contact has helped to a great extent to reduce poverty in many parts of the world. East Asia's success is in that direction. Going further back, the escape from poverty in Western Europe and Europe generally and North America is also connected with the use of economic opportunity that international trade helped."

O entrevistador, talvez surpreso com o fato do economista "humanista" tomar uma posição que normalmente é identificada como "conservadora", faz seu ponto: But the American experience was built on genocide and expropriation of an entire continent, and Europe's wealth was directly connected to its colonial empires.

A resposta de Amartya Sen é fantástica:

"I think one has to separate out the different factors in it. It is certainly correct to say that America was very lucky to get a large amount of land, and the native Indians were extremely unlucky to have white men coming over here. But to say that the whole of the American prosperity was based on exploiting the indigenous population of America would be a mistake. To a great extent it was based on productivity of modern industries which Karl Marx in particular saw very clearly. When Karl Marx discusses in Kapital volume 1 what is "the one great event of the contemporary world," he separates out the American Civil War. What is the Civil War about? Replacing a non-trade-based relationship, namely slavery, by a wage-based relationship, which in other contexts Marx described as wage slavery. But nevertheless, in this context it is the one great thing happening in theworld. He doesn't talk about 1848 and the Paris Commune as "the one great event." Marx as a realist saw that industrial capitalism was producing a level of wealth that was never achievable earlier and which could be the basis of a prosperous society. In this respect, Marx was a great follower of Adam Smith and David Ricardo in seeing that a market economy had enormous opportunity of expanding wealth across the nation and making people escape poverty. You needed to go "beyond it," but you needed it first. Similarly, there might have been genocide, but the history of the world is full of mixed stories. To say that it was the genocide that made Europe or America rich is a mistake. (ênfase minha).

In Europe it was the direct expropriation from the colonies. Bengal itself was stripped of its wealth, pauperized. Bengal got a very raw deal. Its development was put back. There's no question that Bengal suffered enormously from colonialism. But to say that Europe would not have had any industrial revolution but for the colonies is a mistake. I don't think that's the analysis you get. Ultimately, imperialism made even the British working classes suffer. This is a point which the British working classes found quite difficult to swallow, but they did, actually. The labor movement did emphasize that ultimately it's not that poverty is removed in Britain by exploiting the colonies. To say that the whole of the industrial experience of Europe and America just shows the rewards of exploiting the Third World is a gross simplification. Look at some other country, like Japan. It became an imperialist country in many ways, but that was much after they had already made big progress. I don't think Japan's wealth was based on exploiting China. Japan's wealth was based on their expansion in international trade. One has to be realistic. One's concern for equity and justice in the world must not carry one into the alien territory of unreasoned belief.(ênfase minha) That's very important."

A entrevista inteira pode ser lida aqui.

11 de dez de 2006

Economia e o resto

Desde que ocorreu a chamada Revolução Marginalista, por volta de 1870, economia e sociologia não se bicam. Já existiam, é claro, aqueles que criticavam a chamada Economia Clássica. Mas ela estava no centro da discussão, por exemplo, na crítica original de Marx. Quase todo estudante de humanidades conhece, ou pelo menos já ouviu falar, de Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus. Até mesmo John Stuart Mill não é de todo desconhecido. O mesmo não podemos dizer, por exemplo, de Menger, Walras, Jevons. E quem leva a sério os escritos de Marshall? Pareto? Hayek?

Isso não é exatamente culpa de Marx. Na altura em que tinha escrito sua obra máxima, a Economia Clássica apodrecia de madura. Os socialistas do final do século XIX se sentiam desorientados, alguns deixaram de ser marxistas e se tornaram fabianos, outros rejeitaram a teoria marginalista como "reacionária". Dessa época em diante, os marxistas tem passado longe da discussão econômica relevante.

Mas não é só o marxismo que rejeita os neoclássicos. Uma gama variada de correntes sociológicas rejeita os pressupostos econômicos como "ingênuos", "simplistas", "irrealistas". Sociólogos tão distintos entre si quanto Max Weber e Emile Durkheim se uniram em suas críticas aos doutores da economia. Isso sem citar os chamados institucionalistas americanos, herdeiros da escola histórica alemã. Ou mesmo economistas "heterodoxos" como Veblen e Galbraith, que rejeitam a economia tradicional.

A atitude geral desses teóricos das humanidades é distinta da, por exemplo, postura crítica de economistas como Amartya Sen, Paul Krugman, Sachs ou Stiglitz, que denunciam a existência de um viés excessivamente confiante nos mecanismos de mercado para resolver os problemas econômicos(ou mesmo questões não-econômicos). Eles não rejeitam, de maneira geral, a análise mais simples de como os mercados funcionam. Apenas questionam que essa visão deveria ser complicada um pouco mais(incorporar externalidades, problemas dos bens públicos, etc)e que não deveria se dar como pressuposto que os mercado funcionam sempre de maneira eficiente. Apesar de considerar muitas dessas críticas como carecendo de fundamento, elas pelo menos fazem algum sentido.

Agora, os trabalhos que normalmente se fazem no campo de sociologia carecem de qualquer base teórica consistente para analisar questões econômicas. Você pode dizer, "ah mas são trabalhos de sociologia". Sim, eu concordo, mas o problema é que eles abordam questões econômicas, e rejeitam que possam existir algo parecido com leis econômicas. Isso não tem a ver, como muitos podem pensar em primeira instância, num problema essencialmente ideológico. Ao contrário, como fiz questão de frisar anteriormente, muitos de meus adversários ideológicos aceitam como ponto pacífico o funcionamento básico do mercado, ou seja, admitem a existência real dos mecanismo de mercado. É diferente, por exemplo, da posição institucionalista clássica, bem diferente da discussão atual de que instituições importam. Se hoje entendemos que o mercado funciona, mas nunca livremente, pois é delimitado por uma série de mecanismos institucionais que regulam seu funcionamento, a discussão anterior defendia que os mecanismos de mercado eram, eles mesmo, instituições que poderiam ser modificadas pela intervenção do governo.

No campo da história, o quadro não é muito mais animador. Hoje mesmo escutei na CBN um excelente professor que tive há um ano atrás, Marcio Scalércio, comentar que o sucesso das reformas econômicas efetuadas durante o governo Pinochet se deveu ao apoio dos governos estrangeiros devido ao contexto da guerra fria. Sim, é verdade que a economia não desenvolveu suficientemente o hábito de modelar essas intervenções políticas no funcionamento do mercado, mas não é possível que o sucesso econômico chileno se deva apenas a motivos políticos, como se o mercado fosse uma ficção sustentada pela legislação. Esse tipo de enfoque confunde mais do que ajuda. Por exemplo, é muito ensinado por aí que a Europa se reergueu graças ao Plano Marshall, ou que o desenvolvimento econômico do Japão se deveu à sua posição estratégica de aliado americano na luta contra o comunismo. E que Cuba sofre por causa do embargo. Não deve ser tão raro encontrar alguém enumerando motivos políticos pelo fracasso da União Soviética.

O que essa abordagem esconde é que a mesma não apresenta as RAZÕES pelas quais o Plano Marshall pode sim ter ajudado a Europa. Ela explica sempre ad hoc.

Escrevi esse longo texto para chamar atenção para a necessidade de retomar os caminhos desencontrados entre economia e sociologia e, não menos importante, entre economia e história.
Muitos se perguntam porque os argumentos econômicos não são levados a sério no Brasil. Uma dica: talvez porque o resto das humanidades simplesmente pensem que eles são falaciosos.

9 de dez de 2006

Hayek sobre Mises

"The arguments by which he supported his unpopular views were not always completely conclusive, even though some reflection could have shown that he was right. But when he was convinced of his conclusions and had presented them in clear and plain language—a gift that he possessed to a high degree—he believed that this would also have to convince others and only prejudice and stubbornness prevented them from understanding. For too long he had lacked the opportunity of discussing problems with intellectual equals who shared his basic moral convictions in order to see how even small differences in one's implicit assumptions can lead to different results (ênfase minha). This manifested itself in a certain impatience that was easily suspected of being an unwillingness to understand, whereas an honest misunderstanding of his arguments was the case.

I must admit that I myself often initially did not think his arguments to be completely convincing and only slowly learned that he was mostly right and that, after some reflection, a justification could be found that he had not made explicit. And today, considering the kind of battle that he had had to lead, I also understand that he was driven to certain exaggerations, like that of the a priori character of economic theory, where I could not follow him."

Essa observação de Hayek é importante. É verdade que sempre devemos dar atenção aos nossos adversários mais antagônicos, mas se ficarmos APENAS NISSO, corremos o risco de não aprofundarmos nossas idéias e não desenvolvermos argumentos mais sutis, e perdermos o gosto pela discórdia amigável. Mises estava imerso num mar de idéias tão equivocadas que foi impedido de desenvolver seu pensamento de maneira mais profunda. Seus insights são corretos, mas não são suficientes para construir uma teoria econômica alternativa. Ao contrário, são princípios que atualmente nos parecem tão trivialmente verdadeiros que ficamos surpresos com o fato deles terem provocado(e ainda provocarem) discórdia entre a classe intelectual, principalmente não-economistas.

7 de dez de 2006

Políticas públicas parte II

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos dois Claudios, o Avolio e o Shikida, por terem me linkado. Dou boas vindas aos novos leitores que me conheceram através deles.

Na primeira parte dessa série, comentei a respeito de como o debate sobre políticas públicas pode ganhar contornos irrealistas. Na segunda parte, tentarei explicar porque isso ocorre e não é corrigido pelo próprio debate.

Uma analogia recorrente quando se julga o processo de decisão pública é que ele seria uma espécie de mercado. Concordo que pode ser uma boa aproximação, mas em certos sentidos é bastante inadequada. De maneira geral, um consumidor pode entrar ou sair de um mercado quando quiser. E, mesmo que tenha comprado, por exemplo, bolo mais do que gostaria de consumir, pode optar simplesmente por deixar de comer para não passar mal. E pode consumir a quantidade que estiver disposto, dada as suas preferências e sua renda.

Mas isso não ocorre no mercado político. Nele, o eleitor é obrigado a consumir o resultado das políticas públicas, independente de mudanças nas suas escolhas, ou se o consumo daquela política diminui seu bem estar. Você comprou o bolo, agora come todo! Pior, você pode consumir políticas públicas que nunca optaria por consumir! Pois, ao contrário do mercado econômico no qual o consumidor é soberano, aqui você sofre as conseqüências das escolhas dos outros(claro, há o problema das externalidades, mas deixemos isso de lado agora). Como se isso não bastasse, você precisa fazer as escolhas políticas no prazo estipulado pela legislação. E suas escolhas são limitadas: só pode escolher um deputado federal, um senador, etc. Há também uma limitação quanto à oferta de políticas públicas, pois o tamanho do mercado de eleitores a ser disputado é determinado pela lei.

Ora, esse é mesmo um mercado muito estranho, pois você é obrigado a expressar preferências em relação a um assunto que talvez não goste, em primeiro lugar. Sim, nem todo mundo gosta de política, da mesma forma que nem todo mundo gosta de futebol. Quantas vezes você já não viu alguém dizer que é "indiferente" para ele se X ou Y vai ganhar uma determinada partida? Por que uma outra pessoa não poderia expressar o mesmo sentimento quanto ao resultado de uma eleição?

Num certo sentido, no entanto, a política funciona como um mercado. Da mesma forma que a maioria dos consumidores ignora como são produzidos os bens que consomem(em alguns casos, a ignorância é uma bênção), o eleitorado ignora, de maneira geral, os mecanismo pelos quais se produzem os objetivos que eles tanto almejam. Talvez não seja tão absurdo que os indivíduos sejam contrários à privatização mesmo se beneficiando delas, não é mesmo? As ciências mais desenvolvidas são bastante contra-intuitivas, e certamente eu rejeitaria como absurdas certas propostas para construir um prédio, mesmo que eu more nele e o considere bastante bem feito.

Se pensarmos quantos séculos foram precisos para que a ciência econômica se estabelecesse de maneira mais ou menos formal, é um grande indicativo de que ela é altamente contra-intuitiva. "Naturalmente", talvez pensemos em termos de falácias. Já repararam como os erros em economia não são eliminados, ao contrário, ressurgem de tempos em tempos numa nova roupagem?

Um mercado no qual o consumidor é obrigado a expressar uma preferência, sobre um assunto que talvez não lhe interesse, tendo que escolher entre políticas públicas alternativas cujos resultados ele almeja mas a forma de alcançá-los ignora, e no qual consome o resultado do processo deliberativo independente de concordar com ele ou não...Já repararam como o tom da campanha política é muito mais de que o outro será um desastre do que propriamente que o seu governo será bom? As pessoas rejeitam muito mais certas idéias do que se arriscam pelas novas. Por isso os candidatos são tão parecidos em suas rejeições a certas idéias, mas diferentes em questões positivas, de implementação.

Exigem que os candidatos apresentem propostas. Mas, francamente, ninguém liga para propostas. O que acontece se alguém propor o fim do salário mínimo? Então tá.

A liberalização econômica ocorreu muito mais por uma questão de conjuntura, tanto de política internacional quanto de mudança na estrutura dos mercados, tornados mais dinâmicos. Muita gente se surpreendeu com o fato das mesmas idéias de 10 anos atrás terem pautado o segundo turno. E por que seria diferente? Teriam todos lido o "Caminho da Servidão"? Acho que não...

Isso não significa, claro, que o debate público seja inútil. Mas que exigir uma racionalidade dos agentes num cenário que eles não optaram em primeiro lugar é um tanto exagerado. Sim, o decepcionante mesmo é a falta de engajamento daqueles que deveriam pensar essas questões mais a fundo. Mas isso fica para outro post.

6 de dez de 2006

Políticas públicas

A maior parte da discussão de políticas públicas incorre no erro de justificar a intervenção do Estado através do critério pelo qual essa intervenção deveria ser julgada. Explico: quando alguém se posiciona contra o livre comércio em nome do interesse nacional, não explicita de que forma restringir o livre comércio contribuiria para que o interesse nacional seja realizado.

Não acredito que esse erro seja gratuito. Ao contrário, ele é resultado dos próprios termos pelos quais o agente expressa suas idéias. A expressão "interesse nacional" dá a entender que exista um interesse superior aos dos indivíduos que compõem essa nação. Quem, em sã consciência, seria contra os interesses nacionais? Como nunca são definidos, não podem sequer serem questionados.

Outro caso: quando as pessoas apóiam que o Estado oferte determinados serviços, porque acham importante que X seja de qualidade. Mas a questão principal é colocada no subterrâneo, a saber: pode o Estado oferecer o serviço que exigimos dele? Será que ele é capaz de oferecer, digamos, educação "de qualidade"? Sem dúvida que rejeitamos a oferta de uma educação "sem qualidade". Mas essa é uma das possíveis formas que o serviço estatal pode apresentar. Pode ocorrer também que o Estado consiga ofertar um bom serviço até um certo ponto e, a partir dele, comece a enfrentar sérios problemas. O fato da maioria das escolas de ensino médio do Rio de Janeiro sofrerem com a falta de professores talvez seja um indicativo que a universalização do mesmo sem a devida estrutura para ofertar o serviço tenha sido um erro.

O mesmo ocorre com restrições quanto ao exercício de uma determinada profissão. É uma questão empírica, e não de princípio, que devamos exigir diploma dos médicos. Sim, é verdade que no mundo ideal os médicos não deveriam errar, nunca, mas no mundo real precisamos lidar com a questão de como reduzir ao máximo os erros médicos. Consigo pensar numa série de boas razões para exigir diploma dos médicos. Só não são razões a priori.

Normalmente a crítica padrão ao intervencionismo estatal é respondida da seguinte forma: "veja bem, enfrentamos um problema complexo, não é possível ter soluções simplistas, mas também não devemos ficar sem fazer nada". As soluções acusadas de simplistas são aquelas apresentadas pelos críticos do intervencionismo. Só que aqui entramos no problema apresentado por Hayek, que eu resumo da seguinte forma: argumentar que não existe solução simples para um problema é o mais forte argumento para que não se tente resolvê-lo. Pois, se não existe solução simples, também não existem formas simples de avaliar o resultado da tentativa de resolver o problema. A verdade é que não existe solução para o problema, pois compreendê-lo está além de nossa capacidade.

Tentar resolver problemas que estão além da nossa capacidade. Esse é o principal desafio enfrentado pelos intelectuais, principalmente pelos filósofos. O raciocínio desses indivíduos sempre trabalha no limite, com conceitos altamente abstratos. Novamente nos diz Hayek: "a mente não pode prever o seu próprio avanço". Isso não significa, como muitos tendem a interpretar, que tentar antecipar o avanço não seja meritório. Mas que o juiz desse esforço não pode ser o próprio esforço, mas algo além dele. Comumente dizemos que só devemos aceitar como verdade aquilo que a nossa consciência nos aponta como verdadeiro. É essa a humildade intelectual que devemos ter.

Ora, se não encontramos solução para o problema agora, isso não significa que nunca encontraremos solução. Mas que, com a nossa capacidade de compreensão atual, nos é impossível encontrá-la. Os indivíduos mais inteligentes correm, aqui, o maior risco de todos, que é acreditar possuirem um conhecimento que na verdade não possuem. E o fato de serem mais inteligentes normalmente faz com que eles consigam convencer os seus pares com mais facilidade, pois ninguém é capaz de derrotá-los intelectualmente. A responsabilidade dos intelectuais é, nesse sentido, ainda maior. Pois parece caber a eles, em última instância, a defesa ou não de absurdos cuja resistência dos outros é apenas temporária porque reativa.

Que os pensadores se satisfaçam convencendo a platéias e não a si mesmos, é um obstáculo enorme para um verdadeiro debate no que concerne às políticas públicas adotadas por um determinado governo.

4 de dez de 2006

Viva a concorrência!

da Redação

Na guerra da preferência entre os navegadores para Internet, o Firefox segue conquistando novos adeptos e chega a 13,5% do mercado, depois de seis meses de altas consecutivas.

A preferência pelo Internet Explorer, o seu principal rival na disputa, ainda é bem acentuada, mas a tendência é de queda.

O browser da Microsoft saiu de 84,16% de participação no mercado em maio de 2006 para os atuais 80,56% do mercado, com registro de recuos sucessivos nos últimos seis meses.

Entre os outros 12 navegadores que foram identificados pela pesquisa realizada pela Net Aplications, apenas o Safari, browser da Macintosh, ultrapassa 1% na participação de mercado, e detém 4,03% da preferência dos internautas.

O Netscape, líder absoluto entre os navegadores em meados da década de 1990, agora registra participação de 0,83% do mercado. Outro "clássico" dessa época, o Opera tem 0,67%.

2 de dez de 2006

Liberalismo?

O liberalismo é facilmente confundido com:

-positivismo

-weberianismo

-conservadorismo

-fascismo

-darwinismo social

-romantismo

-democratismo

Essa confusão decorre do fato de que todas essas correntes se oporem ao comunismo. Portanto, na luta política, todas elas são aliadas contra o comunismo.

30 de nov de 2006

Mises

Tenho muitas reservas aos escritos do Mises enquanto epistemólogo e, por conseguinte, em seus estudos sobre os fundamentos do pensamento econômico. Mas esse trecho, presente no livro "Planned Chaos", é simplesmente fantástico, uma das melhores defesas do império da lei que eu já li(vale MESMO a pena ler tudo, o austríaco era uma máquina de raciocínio):

"State and government are the social apparatus of violent coercion and repression. Such an apparatus, the police power, is indispensable in order to prevent anti-social individuals and bands from destroying social co-operation. Violent prevention and suppression of anti-social activities benefit the whole of society and each of its members. But violence and oppression are none the less evils and corrupt those in charge of their application. It is necessary to restrict the power of those in office lest they become absolute despots. Society cannot exist without an apparatus of violent coercion. But neither can it exist if the office holders are irresponsible tyrants free to inflict harm upon those they dislike.

It is the social function of the laws to curb the arbitrariness of the police. The rule of law restricts the arbitrariness of the Officers as much as possible. It strictly limits their discretion, and thus assigns to the citizens a sphere in which they are free to act without being frustrated by government interference.

Freedom and liberty always mean freedom from police interference. In nature there are no such things as liberty and freedom. There is only the adamant rigidity of the laws of nature to which man must unconditionally submit if he wants to attain any ends at all. Neither was there liberty in the imaginary paradisaical conditions which, according to the fantastic prattle of many writers, preceded the establishment of societal bonds. Where there is no government, everybody is at the mercy of his stronger neighbour. Liberty can be realized only within an established state ready to prevent a gangster from killing and robbing his weaker fellows. But it is the rule of law alone which hinders the rulers from turning themselves into the worst gangsters.

The laws establish norms of legitimate action. They fix the procedures required for the repeal or alteration of existing laws and for the enactment of new laws. They likewise fix the procedures required for the application of the laws in definite cases, the due process of law. They establish courts and tribunals. Thus they are intent upon avoiding a situation in which the individuals are at the mercy of the rulers.

Mortal men are liable to error, and legislators and judges are mortal men. It may happen again and again that the valid laws or their interpretation by the courts prevent the executive organs from resorting to some measures which could be beneficial. No great harm, however, can result. If the legislators recognize the deficiency of the valid laws, they can alter them. It is certainly a bad thing that a criminal may sometimes evade punishment because there is a loophole left in the law, or because the prosecutor has neglected some formalities. But it is the minor evil when compared with the consequences of unlimited discretionary power on the part of the "benevolent" despot. (ênfase minha)

It is precisely this point which anti-social individuals fail to see. Such people condemn the formalism of the due process of law. Why should the laws hinder the government from resorting to beneficial measures? Is it not fetishism to make supreme the laws, and not expediency? They advocate the substitution of the welfare state (Wohlfahrtsstaat) for the state governed by the rule of law (Rechtsstaat). In this welfare state, paternal government should be free to accomplish all things it considers beneficial to the commonweal. No "scraps of paper" should restrain an enlightened ruler in his endeavours to promote the general welfare. All opponents must be crushed mercilessly lest they frustrate the beneficial action of the government. No empty formalities must protect them any longer against their well-deserved punishment.

It is customary to call the point of view of the advocates of the welfare state the "social" point of view as distinguished from the "individualistic" and "selfish" point of view of the champions of the rule of law. In fact, however, the supporters of the welfare state are utterly anti-social and intolerant zealots. For their ideology tacitly implies that the government will exactly execute what they themselves deem right and beneficial. They entirely disregard the possibility that there could arise disagreement with regard to the question of what is right and expedient and what is not. (ênfase minha) They advocate enlightened despotism, but they are convinced that the enlightened despot will in every detail comply with their own opinion concerning the measures to be adopted. They favour planning, but what they have in mind is exclusively their own plan, not those of other people. They want to exterminate all opponents, that is, all those who disagree with them. They are utterly intolerant and are not prepared to allow any discussion. Every advocate of the welfare state and of planning is a potential dictator. What he plans is to deprive all other men of all their rights, and to establish his own and his friends' unrestricted omnipotence. He refuses to convince his fellow-citizens. He prefers to "liquidate" them. He scorns the "bourgeois" society that worships law and legal procedure. He himself worships violence and bloodshed.

The irreconcilable conflict of these two doctrines, rule of law versus welfare state, was at issue in all the struggles which men fought for liberty. It was a long and hard evolution. Again and again the champions of absolutism triumphed. But finally the rule of law predominated in the realm of Western civilization. The rule of law, or limited government, as safeguarded by constitutions and bills of rights, is the characteristic mark of this civilization. It was the rule of law that brought about the marvelous achievements of modern capitalism and of its—as consistent Marxians should say—"superstructure," democracy. It secured for a steadily increasing population unprecedented well-being. The masses in the capitalist countries enjoy today a standard of living far above that of the well-to-do of earlier ages.

All these accomplishments have not restrained the advocates of despotism and planning. However, it would have been preposterous for the champions of totalitarianism to disclose the inextricable dictatorial consequences of their endeavours openly. In the nineteenth century the ideas of liberty and the rule of law had won such a prestige that it seemed crazy to attack them frankly. Public opinion was firmly convinced that despotism was done for and could never be restored. Was not even the Czar of barbarian Russia forced to abolish serfdom, to establish trial by jury, to grant a limited freedom to the press and to respect the laws?

Thus the socialists resorted to a trick. They continued to discuss the coming dictatorship of the proletariat, i.e., the dictatorship of each socialist author's own ideas, in their esoteric circles. But to the broad public they spoke in a different way. Socialism, they asserted, will bring true and full liberty and democracy. It will remove all kinds of compulsion and coercion. The state will "wither away." In the socialist commonwealth of the future there will be neither judges and policemen nor prisons and gallows."

29 de nov de 2006

Alguns sinais de que você não está pensando

-só faz sentido analisar uma teoria rival à sua se você admitir a possibilidade de que ela esteja correta. Se você a considera simplesmente para reconhecer o que ela possui de diferente, então...

-vai acabar equivalendo a distinção com o erro. Pois, dado que você considera a sua teoria como correta...

-tudo que se distinguir da mesma será encarado como desvio da verdade. E isso se torna mais nítido quando...

-o estilo e as referências do autor rival são mais enfatizados do que o conteúdo de seu texto. Um outro aspecto importante é perceber que...

-as críticas vagas são sempre percebidas como ignorância desse mesmo autor em relação a teorias rivais. Quando, na maioria das vezes, é apenas uma forma econômica de se referir às alternativas. O que pode levar você a concluir que...

-o seu adversário é um charlatão, que esconde de seus leitores a existência de teorias rivais que, se expostas ao público...

-mostrariam a fraqueza absoluta do seu adversário. Na verdade, a teoria dele não passa de...

-um mito. É incrível como tantas pessoas possam ser enganadas!
O nonsense do anarco-capitalismo

O problema central do anarco-capitalismo não está no fato de assumir que a sociedade preceda a criação do governo. Na verdade, esse é um ponto que considero pacífico, a saber, que o direito é ANTERIOR ao governo e que, portanto, uma sociedade sem governo é perfeitamente plausível. O meu problema com o anarco-capitalismo não é esse. Mas sim na oposição que seus defensores fazem à existência do governo em si, considerado como nada mais que um conjunto de criminosos. Pois a taxação seria um "roubo", uma violação da propriedade privada.

E qual o problema dessa tese? Bem, visto que consideram o mecanismo de mercado como suficientemente capaz de aplicar a lei, através da concorrência entre sistemas legais distintos, como explicar, então, que esse mesmo mercado não seja capaz de sufocar a existência do Estado? Ou seja, a idéia do anarco-capitalismo refuta a si mesma. Afinal, se o mercado é capaz, ou melhor, se o mercado é o ÚNICO mecanismo moral de fazer valer a lei, ele não deveria, pelo simples fato de existir, reduzir a existência do Estado a zero? Ora, a própria existência do Estado não seria uma prova de que existe uma "falha" de mercado?

A saída do anarco-capitalista é afirmar que essa regra vale para qualquer outro sistema rival. Por exemplo, os anarco-capitalistas chamam os liberais clássicos de inconsistentes, pois o tal Estado mínimo nunca conseguiu se manter em limites mínimos. Mas essa é uma argumentação muito fraca. Pois o liberal considera o liberalismo como um sistema superior aos seus concorrentes, mas admite que a sua implementação se encontra EM DISPUTA, ou seja, o fato de ser um sistema superior não significa que será NECESSARIAMENTE implementado. Toda organização social possui, portanto, um problema POLÍTICO, que nunca será resolvido, enquanto existir sociedade.

Um outro ponto crucial que o anarco-capitalismo não consegue resolver é que existe DIVERGÊNCIA entre os pensadores anarco-capitalistas. Ora, se existe divergência, torna-se impossível saber que tipo de legislação irá prevalecer num regime anarco-capitalista. E mesmo a idéia de múltiplos sistemas legais concorrentes nos remete a uma dúvida: como pessoas pertencentes a diferentes sistemas legais interagirão entre si? Além disso, a lei nos remete àquilo que é recorrente numa sociedade. Como a mesma pode ser deixada a cargo das interpretações subjetivas dos indivíduos? Como definir o que é uma defesa legítima sem um critério externo aos indivíduos que defina o que é legítimo ou não?
Uma confusão conceitual

Um dos argumentos que surgiram durante o referendo do ano passado é que, visto o Estado possuir o monopólio do uso da força, a venda de armas para particulares deveria ser proibida. Mas isso não procede, de forma alguma. O Estado, em sua definição, não possui o monopólio do uso da força. O único monopólio que o Estado possui, por definição, é o da aplicação da lei.

Outra confusão conceitual, muito comum, é que o Estado possuiria o monopólio da produção de segurança. Esse é um argumento usado pelos anarco-capitalistas, pois defendem que todo monopólio é ruim e que, portanto, o monopólio do Estado em produzir segurança também seria. Mas não existe tal monopólio! Primeiro que Estado algum proíbe a autodefesa. Segundo que o uso de câmeras, a compra de vidros blindados, a contratação de guarda-costas, todas essas ações são produções privadas de segurança. Podem existir restrições na produção da segurança, da mesma forma que elas existem quanto a outras atividades, mas é mentira que o Estado proíba a produção privada de segurança.


Setor bancário deu maior doação à campanha de Lula


SILVIO NAVARRO
FÁBIO ZANINI
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Os bancos foram os principais financiadores da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com doações que somam R$ 10,5 milhões, segundo a prestação de contas dos candidatos que disputaram o segundo turno da eleição presidencial, enviada à Justiça Eleitoral ontem, último dia do prazo legal.

Geraldo Alckmin (PSDB) recebeu montante idêntico, de R$ 10,5 milhões. Nos dois casos, o principal doador do ramo foi o Itaú, com R$ 3,5 milhões.

Os bancos, como o próprio Lula disse em discurso recente no qual citava os juros altos, nunca ganharam tanto. No ano passado, lucraram R$ 28,3 bilhões, recorde histórico --e só no primeiro semestre deste ano, R$ 22,2 bilhões (43% a mais do que em 2005).

Todo o montante repassado pelos bancos para o comitê de Lula foi transferido entre setembro e outubro --antes do primeiro turno. No caso de Alckmin, consta apenas um repasse feito no segundo turno, de R$ 200 mil, do Banco Alvorada, controlado pelo Bradesco.

Montante ainda maior que o dos bancos foi repassado "internamente" para a campanha de Lula. Segundo o tesoureiro da candidatura, José de Filippi Jr., cerca de R$ 15 milhões foram transferidos à campanha pelos comitês estaduais e distrital por conta do compartilhamento de material gráfico.

Alckmin também recebeu boa parte dos recursos dos comitês espalhados pelo país. No total, foram R$ 8,2 milhões oriundos de diretórios e comitês do PSDB e do PFL. Desse montante, R$ 4,2 milhões saíram dos cofres do Diretório Nacional do partido, e R$ 2,8 milhões do diretório paulista.

O segundo maior ramo de atividade que figura na contabilidade é outro com diversos interesses na relação com o governo, o das empreiteiras, com um montante de R$ 10 milhões repassados ao comitê petista, e R$ 4,8 milhões ao tucano.

A lista de doadores petistas é encabeçada pelo grupo Camargo Corrêa, com R$ 3,5 milhões, e pela Construtora OAS, com R$ 1,6 milhão. A OAS também foi uma das maiores financiadoras dos candidatos do PT à Câmara. Em um único caso, consta transferência de R$ 1 milhão da Carioca Christiani Nielsen Engenharia diretamente para o candidato, ou seja, sem passar pelo comitê. Para Alckmin, a Andrade Gutierrez disponibilizou R$ 1,5 milhão.

O presidente Lula também recolheu R$ 4,5 milhões de mineradoras --R$ 4 milhões de subsidiárias do Grupo Vale do Rio Doce. Alckmin recebeu um pouco menos: R$ 3,7 milhões.

Outros R$ 6,2 milhões declarados por Lula vieram de siderúrgicas, sendo R$ 3,1 milhões do grupo Gerdau, cujo empresário Jorge Gerdau Johanpetter é cotado para virar ministro de Lula. Gerdau também doou R$ 3 milhões para Alckmin.

A análise das empresas que abasteceram a campanha petista inclui um total de R$ 3,6 milhões repassados pelo ramo de bebidas, com destaque para a AmBev: R$ 1,5 milhão. Integram a lista as cervejarias Petropolis, com R$ 750 mil, e a Schincariol, R$ 500 mil. A Recofarma, do sistema Coca-Cola, forneceu R$ 880 mil.

A maior doação feita por uma só empresa a Lula foi da processadora de suco de laranja Cutrale, com dois repasses que somam R$ 4 milhões. A empresa trava disputa jurídica para evitar investigação por cartel --o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) recusou proposta de pagamento de multa de R$ 100 milhões para evitar a apuração. Para Alckmin, destaca-se o repasse de R$ 2,6 milhões da Ibar Administrações, do Grupo Votorantim.

A campanha de Lula recebeu pelo menos três repasses milionários de pessoas físicas. Os empresários Pedro e Alexandre Grendene (do ramo calçadista) doaram R$ 2 milhões (R$ 1 milhão cada um); Eike Batista, que atua na área de energia, transferiu R$ 1 milhão.

Alckmin recebeu doação de R$ 1 milhão de Antonio José de Almeida Carneiro, dono de uma corretora financeira.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, doou R$ 2.000, dez vezes o valor dado pela senadora Ideli Salvatti (PT-SC). O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, doou R$ 20 mil. Ricardo Berzoini, ex-chefe da campanha lulista, deu R$ 800. O presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, que disse ter pago uma dívida de R$ 29 mil de Lula, doou R$ 400.