16 de dez de 2006

Uma questão que gostaria de ver, algum dia, respondida

Sempre me surpreendi com a distribuição populacional das cidades. Parece existir um padrão recorrente no fato das pessoas serem dispostas geograficamente de acordo com a sua renda. Uma hipótese mais simples afirmaria que ocorre uma reedição de suposta luta de classes: os ricos não gostam dos pobres, ponto final. Mesmo assim, talvez uma parte desses ricos não nutrisse esse tipo de antipatia e não se importasse em ter como vizinho uma pessoa pobre. Poderia existir uma correlação forte, mas não uma correlação quase perfeita entre renda e geografia, como ocorre atualmente. Será que existe uma razão efetiva?

Claro, alguém poderia responder que se deve aos preços dos imóveis. Mas o preço desses imóveis já não estariam associados com o fato da demanda por aquela área ser formada basicamente por pessoas de alto poder aquisitivo? O que devemos responder é porque as pessoas mais ricas optam em morar na mesma área, ao invés de alguém com poder aquisitivo morar num bairro meia boca.

Qualquer outra explicação, como por exemplo acesso a lazer e bens de luxo, pressupõe que os ricos habitem aquela área. Precisamos responder: por que os ricos se concentraram por lá e não se espalharam pela cidade? Será simplesmente por que são amiguinhos e gostam de conviver? Quem tiver uma explicação, pode me avisar.
Mais Brasil

Expectativa de vida no Brasil ultrapassa os 70 anos


A expectativa média de vida do brasileiro nascido em 2004 subiu para 71,7 anos, um acréscimo de 4 meses e 24 dias em relação aos nascidos em 2003. Nos últimos 25 anos, o aumento foi de 9,1 anos, passando de 62,6 anos em 1980 para os atuais 71,7 anos(ênfase minha). O avanço médio foi de cerca de 5 meses por ano, de acordo com a Tábua de Vida 2004, divulgada, no Rio de Janeiro, pelo IBGE.

Os números escondem desigualdades e desvendam a ausência de um planejamento público de longo prazo. Quase 10 anos de vida separam crianças do mesmo sexo nascidas em 2004 no Distrito Federal (líder), com expectativa de vida de 74,6 anos, e em Alagoas, estado que ocupa o último lugar nos índices de expectativa de vida, com 65,5 anos. Se o recém-nascido de Brasília for uma menina e o bebê alagoano for do sexo masculino a diferença em termos de expectativa de vida chega a 17 anos.

Mas, em 1980, a diferença em termos de expectativa de vida entre o Rio Grande do Sul, o mais bem colocado (com 67,8 anos) e a mesma Alagoas, a última colocada também naquele ano, era de 12,1 anos. Significa que a expectativa de vida do alagoano cresceu 9,8 anos no período 1980-2004, índice superior à própria média nacional (9,1 anos)(ênfase minha).

O crescimento mais acentuado das regiões Norte e Nordeste, justamente as que possuem os piores índices de expectativa de vida, que mais contribuíram para o aumento da média nacional.

Por regiões, o Sul mantém a liderança na esperança de vida ao nascer para ambos os sexos, com Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ocupando a 2ª e 3ª posições por estados. Na média, a expectativa de vida no Sul ficou em 73,9 anos em 2004.

No Sudeste, com expectativa de vida de 73,2 anos, Minas Gerais (73,8 anos) e São Paulo (73,4 anos) tiveram os melhores desempenhos, cabendo ao Rio a pior colocação na região (72,1 anos) e a 11º colocação no ranking nacional. Beneficiado pelo bom desempenho do Distrito Federal, o Centro-Oeste aparece em terceiro lugar no ranking regional (72,9 anos). O Norte (70,7 anos) e o Nordeste (68,6 anos) completam a relação de expectativa de vida ao nascer para homens e mulheres.

Os números revelam diferenças significativas quando as comparações levam em conta o sexo e a idade do brasileiro. Em 1980, homens viviam em média 6,1 anos menos do que as mulheres. Em 2004, a diferença subiu para 7,6 anos, na média nacional, chegando a 9 anos no Rio (67,7 anos para homens e 76,7 anos para as mulheres), a maior diferença da pesquisa. Por estados, 10 posições separam homens e mulheres no Rio quanto às estimativas de vida ao nascer (16º melhor índice masculino e a 6ª colocação no caso das mulheres).

O fenômeno observado no Rio ocorre no Ceará, com diferença de 8,8 anos nas estimativas de vida entre homens e mulheres, e em São Paulo, que ocupa a nona colocação na esperança de vida para homens (69,2 anos) e a quarta melhor posição no ranking para as mulheres (77,8 anos), com uma diferença de 8,6 anos na estimativa de vida entre os sexos opostos.

15 de dez de 2006

Heterodoxia

Diego Navarro em boa reflexão sobre o lugar do pensamento heterodoxo, no debate público e na academia.
Distribuição proporcional da população por cor ou raça



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obs: o último percentual de pardos
é de 44,96%, e não 34,96%
Tendência do analfabetismo


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Breve história do voto

Só é possível entender os movimentos políticos dos últimos 200 anos se tivermos consciência de que a nossa atual democracia é uma conquista recente, e que no passado a situação era bastante distinta.

-----Reino Unido:


-----Estados Unidos:

13 de dez de 2006

Qual o ponto?

Freqüentemente eu ouço lamentações do tipo "se as pessoas se preocupassem mais, fossem bem informadas, etc...nós não teríamos esse problema x". Sim, talvez seja realmente verdade, mas essa não é uma boa abordagem. Veja bem, é um FATO que as pessoas não se preocupam tanto e não são bem informadas. O que fazer para solucionar o problema X DADO esse estado de coisas que queremos solucionar? O economista gosta de pensar em termos de incentivos. Ele ACEITA, do ponto de vista teórico, que as pessoas se comportam da forma que se comportam. O que não significa que ele RECOMENDE que as pessoas ajam dessa forma. Mas se elas agissem da forma que o economista recomenda, não existiria problema em primeiro lugar. E então voltamos ao começo de tudo. Como fazer com que as pessoas se comportem da maneira que queremos que elas se comportem?(1)

Um dos fundamentos da mentalidade anti-capitalista se baseia justamente no fato de que o capitalista(o dono do capital) não necessariamente(2) intenciona o bem estar do consumidor nem do trabalhador. Claro, isso pode gerar uma série de conflitos, que serão resolvidos não pela exigência que o empresário "pense com mais cuidado em seus funcionários". Mas que se criem incentivos para que os empresários resolvam possíveis conflitos que as suas atividades podem provocar quando confrontadas com as atitudes de trabalhadores e consumidores. Muitas vezes o próprio mercado oferece esses incentivos, outras não. Só não é uma boa abordagem acabar com os acidentes de trânsito banindo os carros.

(1)Essa frase pode soar, à primeira vista, meio totalitária, mas na verdade nós queremos que as pessoas se comportem de outra forma para que problemas sejam resolvidos. Isso não significa que a solução não entrará em conflito com outros valores que consideramos tão importantes ou até mesmo mais. Somente se acreditarmos que não existe problema algum é que tal tipo de raciocínio torna-se repulsivo.

(2)eis a confusão acerca do pressuposto egoísta das ciências econômicas: não é que o economista acredite que o indivíduo aja sempre pensando apenas no seu bem estar, mas sim que os indivíduos nem sempre agem pensando no bem estar do próximo. É mais fácil pensar o segundo caso como uma possibilidade do primeiro. Além disso, modelar o comportamento individual como se o indivíduo pensasse predominantemente no bem estar do próximo esbarra no fato de que o bem estar que desejamos para o próximo nem sempre coincide com o bem estar que o próximo deseja para si mesmo. Portanto, mesmo numa economia solidária emerge o conflito.
Uma sugestão de reforma

Seria tão absurdo vincular o reajuste das pessoas que ocupam cargos públicos não negociáveis no mercado(deputados, juízes, vereadores, ministros, etc) à renda per capita nacional? Existiria algum tipo de problema numa medida como essa? Aceito contribuições.



















Produto Interno Bruto dos Municípios 2004
Fontes: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais; IBGE, Diretoria de Geociências, Coordenação de Geografia.

12 de dez de 2006

Um exemplo que se encaixa no texto anterior

Numa entrevista com Amartya Sen, o indiano afirma: " We are beginning to have a world community, and economic contact has partly contributed to that. It's also the case that economic opportunity opened up by economic contact has helped to a great extent to reduce poverty in many parts of the world. East Asia's success is in that direction. Going further back, the escape from poverty in Western Europe and Europe generally and North America is also connected with the use of economic opportunity that international trade helped."

O entrevistador, talvez surpreso com o fato do economista "humanista" tomar uma posição que normalmente é identificada como "conservadora", faz seu ponto: But the American experience was built on genocide and expropriation of an entire continent, and Europe's wealth was directly connected to its colonial empires.

A resposta de Amartya Sen é fantástica:

"I think one has to separate out the different factors in it. It is certainly correct to say that America was very lucky to get a large amount of land, and the native Indians were extremely unlucky to have white men coming over here. But to say that the whole of the American prosperity was based on exploiting the indigenous population of America would be a mistake. To a great extent it was based on productivity of modern industries which Karl Marx in particular saw very clearly. When Karl Marx discusses in Kapital volume 1 what is "the one great event of the contemporary world," he separates out the American Civil War. What is the Civil War about? Replacing a non-trade-based relationship, namely slavery, by a wage-based relationship, which in other contexts Marx described as wage slavery. But nevertheless, in this context it is the one great thing happening in theworld. He doesn't talk about 1848 and the Paris Commune as "the one great event." Marx as a realist saw that industrial capitalism was producing a level of wealth that was never achievable earlier and which could be the basis of a prosperous society. In this respect, Marx was a great follower of Adam Smith and David Ricardo in seeing that a market economy had enormous opportunity of expanding wealth across the nation and making people escape poverty. You needed to go "beyond it," but you needed it first. Similarly, there might have been genocide, but the history of the world is full of mixed stories. To say that it was the genocide that made Europe or America rich is a mistake. (ênfase minha).

In Europe it was the direct expropriation from the colonies. Bengal itself was stripped of its wealth, pauperized. Bengal got a very raw deal. Its development was put back. There's no question that Bengal suffered enormously from colonialism. But to say that Europe would not have had any industrial revolution but for the colonies is a mistake. I don't think that's the analysis you get. Ultimately, imperialism made even the British working classes suffer. This is a point which the British working classes found quite difficult to swallow, but they did, actually. The labor movement did emphasize that ultimately it's not that poverty is removed in Britain by exploiting the colonies. To say that the whole of the industrial experience of Europe and America just shows the rewards of exploiting the Third World is a gross simplification. Look at some other country, like Japan. It became an imperialist country in many ways, but that was much after they had already made big progress. I don't think Japan's wealth was based on exploiting China. Japan's wealth was based on their expansion in international trade. One has to be realistic. One's concern for equity and justice in the world must not carry one into the alien territory of unreasoned belief.(ênfase minha) That's very important."

A entrevista inteira pode ser lida aqui.

11 de dez de 2006

Economia e o resto

Desde que ocorreu a chamada Revolução Marginalista, por volta de 1870, economia e sociologia não se bicam. Já existiam, é claro, aqueles que criticavam a chamada Economia Clássica. Mas ela estava no centro da discussão, por exemplo, na crítica original de Marx. Quase todo estudante de humanidades conhece, ou pelo menos já ouviu falar, de Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus. Até mesmo John Stuart Mill não é de todo desconhecido. O mesmo não podemos dizer, por exemplo, de Menger, Walras, Jevons. E quem leva a sério os escritos de Marshall? Pareto? Hayek?

Isso não é exatamente culpa de Marx. Na altura em que tinha escrito sua obra máxima, a Economia Clássica apodrecia de madura. Os socialistas do final do século XIX se sentiam desorientados, alguns deixaram de ser marxistas e se tornaram fabianos, outros rejeitaram a teoria marginalista como "reacionária". Dessa época em diante, os marxistas tem passado longe da discussão econômica relevante.

Mas não é só o marxismo que rejeita os neoclássicos. Uma gama variada de correntes sociológicas rejeita os pressupostos econômicos como "ingênuos", "simplistas", "irrealistas". Sociólogos tão distintos entre si quanto Max Weber e Emile Durkheim se uniram em suas críticas aos doutores da economia. Isso sem citar os chamados institucionalistas americanos, herdeiros da escola histórica alemã. Ou mesmo economistas "heterodoxos" como Veblen e Galbraith, que rejeitam a economia tradicional.

A atitude geral desses teóricos das humanidades é distinta da, por exemplo, postura crítica de economistas como Amartya Sen, Paul Krugman, Sachs ou Stiglitz, que denunciam a existência de um viés excessivamente confiante nos mecanismos de mercado para resolver os problemas econômicos(ou mesmo questões não-econômicos). Eles não rejeitam, de maneira geral, a análise mais simples de como os mercados funcionam. Apenas questionam que essa visão deveria ser complicada um pouco mais(incorporar externalidades, problemas dos bens públicos, etc)e que não deveria se dar como pressuposto que os mercado funcionam sempre de maneira eficiente. Apesar de considerar muitas dessas críticas como carecendo de fundamento, elas pelo menos fazem algum sentido.

Agora, os trabalhos que normalmente se fazem no campo de sociologia carecem de qualquer base teórica consistente para analisar questões econômicas. Você pode dizer, "ah mas são trabalhos de sociologia". Sim, eu concordo, mas o problema é que eles abordam questões econômicas, e rejeitam que possam existir algo parecido com leis econômicas. Isso não tem a ver, como muitos podem pensar em primeira instância, num problema essencialmente ideológico. Ao contrário, como fiz questão de frisar anteriormente, muitos de meus adversários ideológicos aceitam como ponto pacífico o funcionamento básico do mercado, ou seja, admitem a existência real dos mecanismo de mercado. É diferente, por exemplo, da posição institucionalista clássica, bem diferente da discussão atual de que instituições importam. Se hoje entendemos que o mercado funciona, mas nunca livremente, pois é delimitado por uma série de mecanismos institucionais que regulam seu funcionamento, a discussão anterior defendia que os mecanismos de mercado eram, eles mesmo, instituições que poderiam ser modificadas pela intervenção do governo.

No campo da história, o quadro não é muito mais animador. Hoje mesmo escutei na CBN um excelente professor que tive há um ano atrás, Marcio Scalércio, comentar que o sucesso das reformas econômicas efetuadas durante o governo Pinochet se deveu ao apoio dos governos estrangeiros devido ao contexto da guerra fria. Sim, é verdade que a economia não desenvolveu suficientemente o hábito de modelar essas intervenções políticas no funcionamento do mercado, mas não é possível que o sucesso econômico chileno se deva apenas a motivos políticos, como se o mercado fosse uma ficção sustentada pela legislação. Esse tipo de enfoque confunde mais do que ajuda. Por exemplo, é muito ensinado por aí que a Europa se reergueu graças ao Plano Marshall, ou que o desenvolvimento econômico do Japão se deveu à sua posição estratégica de aliado americano na luta contra o comunismo. E que Cuba sofre por causa do embargo. Não deve ser tão raro encontrar alguém enumerando motivos políticos pelo fracasso da União Soviética.

O que essa abordagem esconde é que a mesma não apresenta as RAZÕES pelas quais o Plano Marshall pode sim ter ajudado a Europa. Ela explica sempre ad hoc.

Escrevi esse longo texto para chamar atenção para a necessidade de retomar os caminhos desencontrados entre economia e sociologia e, não menos importante, entre economia e história.
Muitos se perguntam porque os argumentos econômicos não são levados a sério no Brasil. Uma dica: talvez porque o resto das humanidades simplesmente pensem que eles são falaciosos.