13 de jan de 2007

O problema da natureza humana - parte 1

Um dos temas mais controversos no campo das ciências sociais é o que trata da natureza humana. A raiz da confusão está, ao meu vez, na mal colocação do problema.

Que o homem possua uma natureza, que o distingue daquilo que não é homem, me parece trivial. A coisa começa a ficar mais polêmica e realmente interessante quando, a partir da natureza do homem, se quer deduzir a forma como ele deve se comportar. Qual o problema desse esforço? Bem, ele nasce justamente em julgar os outros tipos de comportamento como não-naturais. Mas se o homem é capaz de agir daquela forma, como pode aquela ação contrariar a sua natureza?

O conceito de natureza humana normalmente é usado não como positivo, ou seja, de descrição da realidade, mas sim normativo, de como a realidade deveria ser. Certas formas de comportamento são mais naturais e, portanto, deveriam se tornar as usuais, enquanto outras, apesar de possíveis, são anti-naturais e deveriam ser evitadas. Mas essa forma de analisar a questão não responde duas perguntas fundamentais: a partir de que critérios se considera um comportamento como natural e como é possível que o homem aja de uma maneira que não seja natural?

É interessante notar que o conceito de natureza já é um avanço considerável no estudo da sociedade humana, mais do que alguns dos seus detratores estão prontos a admitir. Era muito mais simples dizer que determinado comportamento deve ser seguido simplesmente porque "foi sempre assim", ou seja, utilizar-se do argumento da tradição. Dizer que um comportamento se adequa à natureza humana é tentar desenvolver um critério normativo racional, que independa da cultura na qual o indivíduo está inserido, é tentar desenvolver uma forma de julgar a tradição. Se esse esforço foi bem sucedido ou não, é outra história.

12 de jan de 2007

Mahavishnu Orchestra

Uou!
renda per capita(PPP) e IDH - 2006 (parte 2)

Se excluirmos Hong Kong, dos 62 países com IDH alto(maior ou igual a 0,800), 54 fazem parte do grupo com as 62 maiores rendas per capita. Se incluirmos Hong Kong, esse grupo sobe para 55 de um universo de 63 países. Uma correlação de cerca de 90%.
renda per capita(PPP) e IDH - 2006

1 Luxembourg 70,004
2 United States 43,555
3 Norway 43,481
4 Canada 42,402
5 Ireland 42,081
6 Iceland 37,913
7 Denmark 36,083
8 Switzerland 34,498
9 Austria 34,256
10 Australia 32,686
--------------------
1 Norway 0.965
2 Iceland 0.960
3 Australia 0.957
4 Ireland 0.956
5 Sweden 0.951
6 Canada 0.950
7 Japan 0.949
8 United States 0.948
9 Switzerland 0.947
10 Netherlands 0.947

Dos 10 primeiros colocados do IDH, nada menos que 7(70%) estão entre os 10 países com maior renda per capita.

Vamos continuar:

11 Japan 32,640
12 Belgium 32,468
13 Finland 32,153
14 Netherlands 31,989
15 United Kingdom 31,528
16 Germany 31,472
17 Sweden 30,751
18 Italy 29,727
19 Qatar 30,326
20 France 30,322
------------------------
11 Finland 0.947
12 Luxembourg 0.945
13 Belgium 0.945
14 Austria 0.944
15 Denmark 0.943
16 France 0.942
17 Italy 0.940
18 United Kingdom 0.940
19 Spain 0.938
20 New Zealand 0.936

Dos 20 primeiros do IDH, 18(90%) também estão no grupo dos que possuem as 20 maiores renda per capita.

Agora vamos considerar os países restantes com IDH mais desenvolvido, a saber, com um índice acima de 0,900(vou excluir Hong Kong do cálculo porque agora eles pertencem à China):

21 Germany 0.932
(22 Hong Kong SAR, China 0.927)-renda per capita: 33,940
23 Israel 0.927
24 Greece 0.921
25 Singapore 0.916
26 South Korea 0.912
27 Slovenia 0.910
28 Portugal 0.904
29 Cyprus 0.903

E agora a renda per capita:

21 Singapore 29,591
22 Taiwan 29,203
23 Spain 26,009
24 New Zealand 25,848
25 Brunei 25,243
26 South Korea 24,130
27 Israel 23,800
28 Arab Emirates 23,291
29 Slovenia 23,102

Dos 28 países com maior IDH, 22 também estão no grupo dos 28 países com a maior renda per capita e, se adicionarmos Hong Kong, esse número sobe para 23 de um grupo de 29. Isso dá uma correlação de cerca de 80%.

Fontes:

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_GDP_%28PPP%29_per_capita%2C_2006

http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_Human_Development_Index

11 de jan de 2007

Correções

O post anterior saiu com alguns erros que mudavam o sentido final de algumas frases, mas que podiam ser notados quando contrastados com o resto do texto. De qualquer forma, quem quer que o tenha lido ontem, por favor o releia.
Profundidade x superficialidade

Da mesma forma que distingui posição crítica de disposiçção crítica, acho importante distinguir a profundidade de uma teoria da sua veracidade. Não acho que uma teoria verdadeira se distingua de uma falsa pela sua superficialidade; ao contrário, tendo a acreditar que ambas as teorias, a verdadeira e a falsa, podem ser defendidas de forma mais ou menos superficial. O confronto entre uma teoria apresentada de forma profunda e uma teoria apresentada de forma superficial dará sempre vitória à teoria apresentada com mais nuances. Mas isso não significa que seja impossível apresentar a teoria adversária de forma mais rica. Ao contrário, se um determinado assunto pôde ser teorizado de maneira mais aprofundada, isso é um indicativo de que a outra teoria também pode obter um maior grau de profundidade. A profundidade está no assunto, não na teoria.

O marxismo vulgar não ganha do liberalismo sofisticado. O marxismo acadêmico ganha do liberalismo de panfleto. Mas não é essa a questão. Ele "ganha" o debate porque trata de temas que a outra teoria, quando apresentada de maneira simplificada, não consegue nem arranhar. O mais honesto seria pensar: "como a teoria adversária poderia vir a tratar desses temas?". Aí sim teríamos um confronto justo, a saber, entre duas teorias sofisticados, para saber qual delas é mais capaz de explicar a realidade.

É verdade que uma teoria verdadeira avança nosso nível de conhecimento de tal forma a podermos formular teorias mais sofisticados. Mas isso só ocorre depois de termos reconhecido determinada teoria como mais próxima da verdade do que outra. Enquanto estamos decidindo, precisamos considerar nossas alternativas como igualmente válidas e, portanto, avaliá-las em suas formas mais complexas.
Relativismo - seu sentido e seu lugar

Não é que não exista verdade, mas é uma pretensão muito grande pensar que a sua opinião coincide com a verdade. Justamente por isso que a busca da verdade é algo tão emocionante: envolve uma pretensão imensa por parte do indivíduo. A diferença é que alguns tem dimensão dessa pretensão, enquanto outros a ignoram por completo. A humildade intelectual, bem entendida, é saber que o esforço necessário dessa busca está sempre além das capacidades de quem a empreende.

10 de jan de 2007

Republicação de posts antigos - parte 1

O segundo post deste blog tratou de um plágio/falsificação feito pelo professor Emir Sader. Como é um dos mais importantes textos deste blog e foi publicado quando o mesmo era ainda bastante desconhecido, o reproduzo novamente, para que outros leitores tenham a oportunidade de lê-lo:

"EMIR SADER MENTE

Sempre que eu leio um texto, tenho por hábito dar ao autor do mesmo o benefício da dúvida: se ele diz alguma bobagem, é um erro honesto; a honestidade não deve entrar em questão, até porque não tenho como saber a respeito da personalidade de quem expressa aquelas idéias.
Por isso fiquei tão chocado com o ocorrido nessa terça feira. No recém criado blog de Emir Sader no portal Carta Maior, o professor da UERJ publicou um texto intitulado "Zizek contra Bill Gates". Na chamada do site, lemos:

"A revista "The Economist" o colocou na capa, a cabocla "Veja" seguiu a mesma linha e fez matéria sobre a “generosidade” de Bill Gates e outros bilionários que doam uma parte das suas fortunas. Conheça o que o ensaísta Slavoj Zizek chama de liberal-comunistas(...)"
Realmente, as doações feitas por bilionários vem chamando bastante a atenção do público. E Zizek é, para quem não sabe, o último sopro de originalidade do marxismo militante. Sua principal tese é a seguinte: a esquerda "realista", ao ceder à economia de mercado pretendendo reformar o sistema por dentro, acaba por sendo a principal propagandista do capitalismo. Mas, ao contrário de outros radicais de esquerda, ele não diz que esses "progressistas pró-capital" sejam traidores do movimento ou que tenham cedido a desejos egoístas e pulado o muro ideológico. Eles foram, na verdade, seduzidos pelo discurso pró-diversidade, a favor da igualdade racial, anti-homofóbico e internacionalista que o capitalismo globalista abraça com tanto prazer. Zizek, na verdade, não se pretende original.
Ele admite que sua tese de "fusionismo"entre a esquerda liberal e o capitalismo internacional, que valoriza a individualidade acima de tudo(afinal, é a defesa do indivíduo que sustenta a idéia de igualdade entre as raças, o sexo livre, o respeito ao "diferente"; todos colocam o capitalismo "pra rodar")já foi há muito diagnosticada pelos conservadores americanos de vertente isolacionista.
Para estes, o estilo americano de vida estaria sendo corroído pela presença de imigrantes, pela mídia imoral, pelo homossexualismo militante, por religiões não-cristãs, por interesses corporativos que incentivam a migração de empregos americanos para países com mão de obra mais barata, pela liberação do aborto, disseminação do sexo livre, pornografia, etc. Enfim, a lista é enorme e fartamente documentada. Quem quiser ver a relação entre esses grupos consideradors "extremistas" pelos conservadores e as grandes corporações, é só fazer uma pequena pesquisa.
Mas a maior parte dos leitores de Carta Maior, ou ao menos desse post, não devem conhecer essa tese. Passo a analisar, portanto, o que Emir escreveu. Francamente, eu nem sei por onde começar; Sader não esclarece se o texto publicado é um resumo que ele fez do artigo de Zizek, uma tradução do original, ou uma mistura dos dois. Começa assim:

"O ensaísta esloveno Slavoj Zizek os chama de “liberal comunistas” – incluindo na mesma categoria também a George Soros, aos executivos de Google, da IBM, de Intel, entre outros – que têm no editorialista do New York Times, Thomas Friedman, um dos seus escribas de plantão. A palavra chave desses tipos é smart. 'Ser smart, é ser dinâmico e nômade, inimigo da burocracia centralizada; acreditar no diálogo e na cooperação contra a autoridade central; apostar na flexibilidade contra a rotina; na cultura e no saber contra a produção industrial; privilegiar as trocas espontâneas e a autopoïese (a capacidade de um sistema de se auto-engendrar) contra as hierarquias rígidas.' "
E termina: "Na oposição entre essas duas caras – smart e non smart -, a idéia mestra é a de deslocalizar, exportando a face escondida (e indispensável) da produção para os paises da periferia – non smart -, com a super-exploração e a degradação do meio ambiente.

Assim Zizek se opõe a Bill Bates e os seus “liberais-comunistas”.

(O artigo original foi publicado pela London Review of Books.)"

Tudo muito estranho, não acham? O artigo original, pelo que podemos entender pela citação do nome de Zizek no início e no fim do texto, não foi traduzido por Emir. Não faz muito sentido, portanto, informar onde o artigo "original" foi publicado, já que não foi apresentada nenhuma tradução. A maioria dos leitores, no entanto, é levada a imaginar que leu um resumo fiel do texto de Zizek.

Curioso que sou, e devo revelar também que, apesar das bobagens econômicas que profere, considero Zizek um pensador perspicaz quando a questão é analisar relações políticas, fui atrás do artigo original. "Mas Renato", alguns podem dizer,"não há link para o artigo, não deve ter na internet". Infelizmente, a vida não é tão bonita assim. Abram o Google. Digitem "London Review of Books". Cliquem no primeiro link. Apertem search. Digitem o nome Zizek em "contributor". Agora selecionem "Nobody has to be vile". Pronto! Eis que aparece o artigo de Zizek que Sader pretendeu resumir. A fonte não é obscura, existe na internet e a data é até mesmo relativamente antiga: 6 de abril de 2006. E o que diz Zizek, afinal? Bem, o artigo começa assim:

"Since 2001, Davos and Porto Alegre have been the twin cities of globalisation: Davos, the exclusive Swiss resort where the global elite of managers, statesmen and media personalities meets for the World Economic Forum under heavy police protection, trying to convince us (and themselves) that globalisation is its own best remedy; Porto Alegre, the subtropical Brazilian city where the counter-elite of the anti-globalisation movement meets, trying to convince us (and themselves) that capitalist globalisation is not our inevitable fate – that, as the official slogan puts it, ‘another world is possible.’ It seems, however, that the Porto Alegre reunions have somehow lost their impetus – we have heard less and less about them over the past couple of years. Where did the bright stars of Porto Alegre go?"
Ahn?
E termina:

"Etienne Balibar, in La Crainte des masses (1997), distinguishes the two opposite but complementary modes of excessive violence in today’s capitalism: the objective (structural) violence that is inherent in the social conditions of global capitalism (the automatic creation of excluded and dispensable individuals, from the homeless to the unemployed), and the subjective violence of newly emerging ethnic and/or religious (in short: racist) fundamentalisms. They may fight subjective violence, but liberal communists are the agents of the structural violence that creates the conditions for explosions of subjective violence. The same Soros who gives millions to fund education has ruined the lives of thousands thanks to his financial speculations and in doing so created the conditions for the rise of the intolerance he denounces."

Bem, o final parece não ter sido tão distorcido assim(apesar de ter sido omitido), mas o que dizer do início? Zizek parece demonstrar que o Forum Social Mundial tem se esvaziado, e algumas dessas pessoas:

"Some of them, at least, moved to Davos. The tone of the Davos meetings is now predominantly set by the group of entrepreneurs who ironically refer to themselves as ‘liberal communists’ and who no longer accept the opposition between Davos and Porto Alegre: their claim is that we can have the global capitalist cake (thrive as entrepreneurs) and eat it (endorse the anti-capitalist causes of social responsibility, ecological concern etc). There is no need for Porto Alegre: instead, Davos can become Porto Davos."

Zizek indica, como vem indicando há muito, que a esquerda liberal encontrou seu "aconchego" nos braços do capitalismo internacional. E quem seriam esses liberais-comunistas dispostos a bancar teses da esquerda?

"The usual suspects: Bill Gates and George Soros, the CEOs of Google, IBM, Intel, eBay, as well as court-philosophers like Thomas Friedman."

Notem que o artigo de Sader começa apenas no terceiro parágrafo do texto de Zizek. Ele simplesmente ignora a denúncia de esvaziamento ocorrida no forum social mundial, no sentido de se fazer oposição radical à globalização, e o fato desse mesmo forum ter se tornado basicamente um outro lado da mesma moeda de Davos. E pior, ignora o resto do parágrafo de Zizek:

"The true conservatives today, they argue, are not only the old right, with its ridiculous belief in authority, order and parochial patriotism, but also the old left, with its war against capitalism: both fight their shadow-theatre battles in disregard of the new realities."

Será que Sader ignora esse trecho por se encaixar, em certo sentido, nos rumos que o governo Lula tem tomado ultimamente? Pois logo depois retoma o final do parágrafo:
"The signifier of this new reality in the liberal communist Newspeak is ‘smart’. Being smart means being dynamic and nomadic, and against centralised bureaucracy; believing in dialogue and co-operation as against central authority; in flexibility as against routine; culture and knowledge as against industrial production; in spontaneous interaction and autopoiesis as against fixed hierarchy."

A seguir, Sader continua a meramente traduzir o artigo. Mas não resiste e volta a omitir trechos importantes:

"Liberal communists like to point out that the decision of some large international corporations to ignore apartheid rules within their companies was as important as the direct political struggle against apartheid in South Africa. Abolishing segregation within the company, paying blacks and whites the same salary for the same job etc: this was a perfect instance of the overlap between the struggle for political freedom and business interests, since the same companies can now thrive in post-apartheid South Africa."

Será que esse trecho foi omitido devido ao debate de quotas raciais no Brasil?

"Liberal communists love May 1968. What an explosion of youthful energy and creativity! How it shattered the bureaucratic order! What an impetus it gave to economic and social life after the political illusions dropped away! Those who were old enough were themselves protesting and fighting on the streets: now they have changed in order to change the world, to revolutionise our lives for real. Didn’t Marx say that all political upheavals were unimportant compared to the invention of the steam engine? And would Marx not have said today: what are all the protests against global capitalism in comparison with the internet?"

Uma pesada crítica à ilusão de 1968, denunciada por Hobsbawm como revolta individualista sem conteúdo político(leia-se, sem base socialista) e que agora se apresenta como base cultural perfeita para esse capitalismo globalista revolucionário, pois modifica a forma pela qual as pessoas se relacionam, sem mexer na estrutura através da qual essas mesmas relações se dão. A diferença é vital: mudar a forma é modificar o meio, sem que o sistema mude. Mas o público brasileiro fica sem saber desse debate.

E agora o trecho mais controverso do texto:

''We should have no illusions: liberal communists are the enemy of every true progressive struggle today. All other enemies – religious fundamentalists, terrorists, corrupt and inefficient state bureaucracies – depend on contingent local circumstances. Precisely because they want to resolve all these secondary malfunctions of the global system, liberal communists are the direct embodiment of what is wrong with the system. It may be necessary to enter into tactical alliances with liberal communists in order to fight racism, sexism and religious obscurantism, but it’s important to remember exactly what they are up to."

Zizek proclama que a esquerda reorganize sua forma de enxergar o mundo, se despredendo de sua dependência do liberalcomunismo. Ao mesmo tempo em que admite a possibilidade de alianças táticas para combater certos reacionarismos, Zizek não deixa claro se é válido para a esquerda aliar-se com fundamentalistas religiosos, terroristas e burocracias corruptas e ineficientes para combater o liberalcomunismo. Esse trecho é o mais revelador da impotência analítica da tese de Zizek: o liberalcomunismo é um mal, pois perpetua o capitalismo e o exalta como capaz de se autoreformar. Qual a capacidade, no entanto, dos outros inimigos considerados como locais, de se adequarem à teses reformistas? O critério que Zizek falha em aceitar é o que diferencia uma sociedade aberta de uma sociedade fechada, que é basicamente a igualdade de todos perante a lei, mesmo que se considere essa sociedade como injusta(a injustiça é estrutural, apesar de ser cometida por um homem em relação a outro); pois a sociedade que não possui essa igualdade pode ser injusta também, mas não existe possibilidade de reforma. Exemplos não faltam: Cuba, Irã, Coréia do Norte, o antigo Afeganistão.

Zizek é um pensador controverso, sem dúvida, e suas teses variam muito facilmente entre o ridículo e o essencial. A "tradução/resumo" feita por Sader de seu texto, no entanto, é absurdamente mentirosa e tendenciosa: omite os trechos polêmicos, que colocam em cheque idéias que Emir defende(o governo lula, o forum social mundial como alternativa revolucionária à globalização,1968 como paradigma da nova esquerda revolucionária, a caracterização do capitalismo globalizado - ou neoliberalismo - como racista, homófobo, etc) e que bate de frente com muitas teses caras à esquerda brasileira.
Vejam bem, eu não tenho absolutamente nada contra Emir expressar essas idéias - apesar de considerá-las estapafúrdias, ele possui todo o direito de propagá-las. O que questiono aqui é o fato dele ter se utilizado do texto de Zizek para criticar os elogios que Bill Gates recebeu da mídia, quando na verdade o texto é muito mais profundo que isso.

Ele também não é obrigado a traduzir integralmente o artigo original. Mas então deveria deixar claro que:

- o artigo em seu blog, embora traduzido, não é integral

-o original se encontra disponível na internet
Repito, sem esse esclarecimento, o leitor é levado a pensar que o texto apresentado:
-foi baseado no original de Zizek e as reflexões são de responsabilidade de Sader(um dos comentários ao post foi: "Nota 100. Quando não está propagandeando o governo Lula, o Emir Sader volta a ser um grande intelectual de esquerda.")
-o texto é mera tradução do original de Zizek
As duas alternativas são mentirosas: Ou Sader leva crédito por aquilo que não escreveu, ou não é responsabilizado pelo que fez.
Emir Sader, descanse em paz, você é um defunto intelectual."
-----------------------------------
Texto original do Zizek aqui
Versão bisonha feita por Sader aqui

9 de jan de 2007

Posição crítica x disposição crítica

Há muito tenho observado uma diferença fundamental de atitude, naqueles que fazem críticas em relação ao pensamento de alguém ou a um determinado estado de coisas. É o que acabei chamando de posição crítica e disposição crítica.

Posição crítica é um lugar no espaço das idéias. É referencial e independe de quem a ocupa. É o local no qual se encontram todos aqueles cujas idéias não são as dominantes numa dada sociedade. Ora, todo aquele que considera defender uma idéia verdadeira tenciona que ela seja compartilhada por todos os outros seres humanos, já que é preferível que a verdade seja compartilhada por um número maior do que por um número menor de pessoas. Idealmente, todos deveriam compartilhar a verdade. Claro que podemos considerar algumas verdades como sendo mais importantes do que outras, portanto nos importaremos menos que as pessoas acreditem em certas afirmações mentirosas do que outras. Inclusive cada pessoa também possui o seu próprio julgamento quanto à importância de cada uma dessas verdades.

O que existe de tão especial nessa posição crítica? Simples: a única forma dessa idéia sair da margem e se tornar dominante é se for colocada numa roupagem crítica, ou seja, é preciso que sejam apontados os defeitos da opinião dominante para que as pessoas se convençam em trocar as idéias dominantes pelas marginais. Não existe outra forma de promoção das idéias marginais que não essa.

Isso não significa que, alcançada a posição dominante, essas idéias continuem a ser defendidas com uma roupagem crítica. Ao contrário, elas podem passar a usar a roupa das idéias dominantes, a saber, passar a ver toda e qualquer crítica como degradação da "verdade". Se na posição marginal essas idéias se apresentavam como críticas, na posição dominante elas rejeitam todo e qualquer típico de crítica.

Já a disposição crítica incorpora a postura da posição crítica mesmo quando suas idéias se tornam dominantes. A disposição crítica entende que as idéias devam sempre ser criticadas, mesmo quando se tornam dominantes numa dada sociedade e mesmo que a consideremos como verdadeiras. Pois toda e qualquer idéia pode ser melhorada, refinada, aperfeiçoada, aplicadas a casos que antes eram ignorados. Esse movimento pela melhora é essencial, e não é perdido pelo fato de uma idéia ou doutrina ter se tornado dominante.

Claro que as idéias originadas de uma disposição crítica também enfrentam os dilemas estratégicos quando se tornam dominantes. Pois precisam, ao mesmo tempo, utilizar-se de sua posição dominante para criticar as idéias marginais e que não são verdadeiramente críticas, e fazer uma crítica de si mesmas. O problema é que essa auto-crítica pode passar a ser utilizada pelos próprios inimigos da crítica, e os defensores das idéias que possuem uma disposição crítica racham em dois: de um lado, aqueles que lutam o bom combate contra idéias reconhecidamente equivocadas; de outro, os que criticam as próprias idéias críticas que, se melhores do que as outras, não podem ser consideradas como ideais.

Por isso o desenvolvimento do pensamento liberal que se deu no período anterior à absorção dos princípios liberais básicos pelas mais variadas sociedades é muito mais criativo e crítico do que o período que cobre a defesa feita, pelos liberais, daqueles princípios que já tinham sido implementados. E que o pensamento liberal só renasceu realmente quando, colocado novamente na margem das idéias, tornou-se imperativa a necessidade de se reinventar.

8 de jan de 2007

A história se repete...

"O presidente venezuelano, Hugo Chávez, pediu na segunda-feira ao Congresso da Venezuela que lhe conceda poderes especiais, lançou um abrangente pacote de nacionalizações e prometeu cassar a autonomia do Banco Central."


A crítica do convencionalismo

A crítica do convencionalismo se refere, basicamente, aos bens artísticos e científicos. Numa economia de mercado, os indivíduos manifestam os gostos que já possuem. O mercado funciona muito bem para satisfazer esses gostos. Mas não funciona para desafiá-los. A saber: a inovação não é incentivada pelo mercado, ao contrário, a tendência é que o resultado de mercado se atenha às convenções sociais estabelecidas. As pesquisas científicas puras não atraem os investimentos das empresas, da mesma forma que as manifestações artísticas de vanguarda. É preciso, portanto, que elas sejam financiadas pelo governo.

Essa crítica se equivoca ao não perceber o caráter dinâmico dos gostos, que são modificados na margem. Só existe a noção de ciência pura porque existe uma ciência aplicada, só existe noção de arte de vanguarda porque existe a arte convencional. O que era ciência pura ontem tornou-se aplicada, o que era vanguarda agora é lugar comum. Não é preciso garantir a existência de uma ciência pura ou de uma arte de vanguarda, mas sim a possibilidade do indivíduo em optar por não seguir os caminhos da ciência aplicada nem da arte de vanguarda.

Imaginemos, por exemplo, se tanto a produção da ciência quanto da arte ficassem a cargo do governo. Não estaria garantido que a ciência nem a arte fossem puras, mas sim que esses campos refletissem as preferências dos governantes. O problema está justamente aí: as preferências dos governantes não podem manifestar a novidade, mas apenas se basear nas experiências passadas. Não sabemos qual pesquisa de ciência pura ou qual arte experimental vingará. Por isso a única forma de fugir do convencionalismo não é o financiamento governamental, que só pode se basear no nível atual de conhecimento, mas sim a garantia legal do dissenso. A ação do governo será influenciada por aqueles grupos que se organizarem melhor. As pesquisas científicas financiadas serão aquelas que beneficiam determinadas empresas, e as artes financiadas serão de artistas já famosos ou de pessoas próximas a eles.

Faz mais sentido que o governo financie pesquisas que sejam consideradas úteis pelos eleitores, ou manifestações artísticas consideradas valiosas do que esse investimento na inovação. Pois nesse caso o mérito da questão pode ser debatido, enquanto no caso da inovação temos um campo em aberto.

Podemos nos questionar se o governo não poderia oferecer os intrumentos para pesquisa científica ou criação artística. Não pensei muito a respeito ainda, então deixo esse assunto para um próximo artigo.

As críticas da eficiência e da desigualdade

Da minha lista original de críticas ao capitalismo, restaram apenas 3, das quais analiso duas neste texto. A crítica da eficiência se relaciona com a crítica do consumismo, pois diz que as escolhas feitas pelos consumidores não produzem uma alocação eficiente dos recursos, já que parte das riquezas seriam gastas em bens simbólicos e, portanto, sem valor. O erro está em qualificar como sem valor os bens que são simbólicos, pois não são materiais. Os serviços de um músico ou de um jogador de futebol não produzem uma satisfação ilusória em quem os consome.

Uma crítica mais sofisticada poderia ser feita ao afirmar que as preferências do consumidor alocam de maneira ineficiente os recursos num sentido objetivo, a saber, um capital que poderia ser mais produtivo se empregado em outras atividades do que aquelas nas quais ele é empregado atualmente. Novamente, o erro está em ignorar que o emprego mais produtivo do capital se refere a empregá-lo em atividades nas quais ele será mais bem remunerado. Ou seja, só podemos avaliar se um capital é produtivo ou não se ele atende à necessidade dos consumidores, não num nível abstrato de produtividade. Um avião que seja muito mais veloz do que os aviões atuais mas cuja velocidade acrescentada não satisfaça a preferência dos consumidores de tal forma a cobrir seus custos não é economicamente produtivo, apesar de ser mais efetivo se considerarmos simplesmente que ele percorre os vôos de maneira mais rápida do que os outros aviões.

A crítica da desigualdade se relaciona, em parte, com a desigualdade de oportunidade, já vista anteriormente. Essa crítica pode se apresentar em duas formas, já apresentadas anteriormente mas que repito abaixo:

"fraca: Se essa desigualdade for muito grande, haverá uma formação de classes no sentido marxista do termo, provocando a falência do capitalismo. É preciso, portanto, distribuir os recursos(principalmente renda) de tal forma que a demanda pela revolução não aconteça.

forte: somente o socialismo é capaz de distribuir os recursos com igualdade"

A primeira tese é falsa, pois a divisão marxista é entre proprietários dos meios de produção e trabalhadores. Grande parte da desigualdade de renda se dá, atualmente, entre trabalhadores "intelectuais" e "braçais", já que a burguesia, no sentido clássico empregado por Marx, constitui uma parcela ínfima da população. A segunda é falsa, e o motivo decorre da primeira, já que a desigualdade de renda se deve, atualmente, muito mais à desigualdade da produtividade do trabalho do que propriamente de uma oposição entre proprietários e proletários. O socialismo não resolveria esse problema, já que a propriedade estatal dos meios de produção não acabaria com a diferença de produtividade entre os trabalhadores.

7 de jan de 2007

Domingo

A partir desse domingo, este blog só funciona de segunda a sábado. Amanhã termino a série de posts sobre as críticas mais comuns ao capitalismo.