22 de dez de 2006

Aviso

Este blog entra num pequeno recesso e volta a ser atualizado na terça-feira. Na volta, trarei algumas novidades. Aguardem.

20 de dez de 2006

A sabedoria de Milton Friedman

"Insofar as the government has information not generally available about the merits or demerits of the items we ingest or the activities we engage in, let it give us the information. But let it leave us free to choose what chances we want to take with our own lives.(ênfase minha)"

19 de dez de 2006

Ainda imóveis - agora um outro problema

O André deixou no ar a suposição de que a rede de transporte define a ocupação urbana, e não o oposto. Eu não consegui imaginar uma situação específica na qual isso aconteça, mas o Claudio Avolio nos traz informações direto do Rio:

"Um exemplo claro, principalmente entre a classe média, é o caso do metrô. Os imóveis no Rio de Janeiro, onde o tempo para se deslocar está cada vez maior, que estão localizados próximo ao metrô são bem mais valorizados que os mais afastados. Isso vale para bairros como Botafogo e Tijuca principalmente. Como o preço do imóvel dispara (ao ponto de um apto de 2 qts e +/- 100 m2 custar algo em torno de 300 mil), acaba concentrando uma parcela da classe média mais "endinheirada" nessas regiões. Quando uma região acumula atrativos cobiçados pela população local, os imóveis sobem de preço e conseqüentemente espanta os mais pobres."

O André tinha escrito:

"Por exemplo, até a Revolução Industrial os pobres preferiam morar no entorno das cidades, para ficarem próximos das oficinas em que trabalhavam, enquanto a aristocracia se concentrava no centro."

E parece que os pobres ainda preferem morar perto das "oficinas". Podemos explicar a expansão das favelas sob esse prisma. Se esses pobres habitassem a região da Baixada Fluminense, o tempo que demorariam para se deslocar até o seu local de trabalho seria tão grande que talvez compense para eles morar perto do trabalho, ainda que precariamente(e morar na Baixada é tão ou mais precário que morar em certas favelas). Se o transporte público funcionasse de maneira mais eficiente(e aqui entra o argumento do André), talvez eles pudessem optar por morar mais longe. Isso, claro, acompanhado de uma melhora do fornecimento de serviços públicos na Baixada Fluminense.

E, claro, essas regiões distantes são evitadas pelos mais ricos, que podem morar de maneira razoavelmente confortável e relativamente próxima do trabalho(mesmo quando optam em morar longe, os ricos atraem serviços e atividades econômicas que se instalam ao redor de sua clientela). Apesar de que, como o Claudio aponta, o transporte público tem se tornado um problema tão sério que até mesmo a população de maior poder aquisitivo tem sofrido com ele.

Mas o que é morar "perto" do trabalho numa cidade de grande porte? Como isso funciona em outras cidades fora do Brasil? Existe "solução" para o problema do transporte público?
Economia e o resto II

Gregory Mankiw responde a seguinte pergunta de um professor: aprender economia torna a pessoa mais conservadora*?

"I believe the answer is, to some degree, yes. My experience is that many students find that their views become somewhat more conservative after studying economics. There are at least three, related reasons.

First, in some cases, students start off with utopian views of public policy, where a benevolent government can fix all problems. One of the first lessons of economics is that life is full of tradeoffs. That insight, completely absorbed, makes many utopian visions less attractive. Once you recognize, for example, that there is a tradeoff between equality and efficiency, as economist Arthur Okun famously noted, many public policy decisions become harder.

Second, some of the striking insights of economics make one more respectful of the market as a mechanism for coordinating a society. Because market participants are motivated by self-interest, a person might naturally be suspect of market-based societies. But after learning about the gains from trade, the invisible hand, and the efficiency of market equilibrium, one starts to approach the market with a degree of admiration and, indeed, awe.

Third, the study of actual public policy makes students recognize that political reality often deviates from their idealistic hopes. Much income redistribution, for example, is aimed not toward the needy but toward those with political clout. This Dave Barry column, which is reprinted in Chapter 22 of my favorite economics textbook, describes a good example.

For these three reasons, many students in introductory economics courses become more conservative--or, to be precise, more classically liberal--than they began. Nonetheless, studying economics does not by itself determine one's political ideology. I know good economists who are distinctly right of center and good economists who are distinctly left of center. In my department at Harvard, I would guess that Democrats outnumber Republicans among the faculty (although there is surely more political balance in the economics department than in most other departments at the university)."

O post original, com os pertinentes comentários, pode ser lido aqui.

*conservador, aqui, possui o sentido de defender, em linhas gerais, os princípios básicos do liberalismo econômico. Historicamente, isso se explica pelo fato do progressismo, nos EUA, se indentificar com o movimento reformista ocorrido no final do século XIX, que questionava as bases do pensamento econômico clássico, considerado "inadequado" e "insuficiente" para tratar de um mundo que havia se modificado bastante nas últimas décadas. Apesar do foco ser a reforma econômica, o progressismo também invadiu a área do direito, com os sucessivos ataques sofridos pelo constitucionalismo estrito.
Mais uma resposta?

O blogueiro André Kenji oferece uma outra resposta para a disposição geográfica das cidades:

"Há diversos pontos que explicam isso. Em grande parte ricos sim tentam se afastar dos pobres(em parte por segurança), mas há outras questões, como acesso a serviços públicos e facilidades de logística.

Por exemplo, até a Revolução Industrial os pobres preferiam morar no entorno das cidades, para ficarem próximos das oficinas em que trabalhavam, enquanto a aristocracia se concentrava no centro.

Com o advento do automóvel, muitos ricos iriam para subúrbios. Na verdade, o padrão é mais que social. No Rio isso é dificil de aferir por quê quem pode mora do lado da praia, e os pobres se contentam com a periferia, mas em São Paulo, por exemplo, se repete a tendência americana de famílias procurarem subúrbios(Como Itu e Jundiaí), casais e solteiros ricos bairros de fácil acesso nas regiões centrais enquanto os pobres e a classe média mais baixa o entorno da CPTM e a Zona leste.

O livro Crabgress Frontier, de Kenneth Jackson é uma boa abordagem do assunto, apesar de ser bastante esquerdinha. ; )

Minha tese é que a rede de transportes que define a ocupação urbana, não o contrário. "

Como se dá a migração intra-urbana em busca por segurança? Eu pensei num modelo razoavelmente simples. Imaginemos uma sociedade na qual não exista crime. E, mesmo que exista, são crimes passionais que, por serem esporádicos, são de difícil previsão de que quando ocorrerrão e, portanto, não se pode fazer muito para evitá-los. Não importa muito, portanto, o local no qual os indivíduos moram. Nessa cidade, ricos e pobres moram misturados(não há problema de bens públicos além da segurança). Vamos supor que uma atividade criminosa seja iniciada. Certamente, esses criminosos terão uma limitação geográfica, delimitando sua área de atuação(da mesma forma que uma atividade econômica qualquer).

Ora, diante dessa violência, os ricos, justamente por possuírem mais recursos, são capazes de dispor desses recursos para se afastarem das áreas consideradas violentas, enquanto os pobres, que possuem recursos limitados, dificilmente conseguirão se afastar das áreas mais violentas. E essa violência provoca uma bola de neve: o roubo é como se fosse um custo adicional com o qual os agentes econômicos precisam lidar, e isso pesará nas suas decisões produtivas. A região decai economicamente, tornando-se mais pobre por causa da atividade parasitária do crime.

É como se a atividade criminosa destrutiva, portanto, afastasse os indivíduos mais produtivos e mais ricos daquela região, fazendo com que habitem naquela área apenas as pessoas mais pobres e condenando essa região a uma pobreza rotineira.

Sobre a evolução histórica das cidades, conheço pouco a respeito, mas esta possui uma serventia limitada, pois só nos orienta para saber como que as coisas evoluíram até então. A disposição passada não pode nos explicar a persistência de uma determinada disposição no presente e nem como esta disposição pode se apresentar no futuro.

Sobre a tese da rede de transportes definir a ocupação urbana, não consigo ver como isso pode provocar uma divisão geográfica mais ou menos uniforme por renda.

18 de dez de 2006

Pobreza: absoluta e relativa

Na minha tentativa de jogar menos calor e mais luz no debate político, discuto agora o conceito de pobreza. E devemos observar um princípio que, se óbvio, quando revelado, torna-se obscuro se subentendido. O conceito de pobreza é relativo.

O conceito de pobreza é relativo porque, para existir uma pessoa pobre, é preciso que exista alguém que seja considerado rico. Se todos possuíssem o mesmo bem estar material, o conceito de pobreza não poderia ser aplicado. É preciso, portanto, que exista uma desigualdade de bem estar. Querer acabar com a pobreza significa querer acabar com a desigualdade de bem estar, ou seja, significa querer acabar com a riqueza. A única forma de acabar, em definitivo, com a pobreza, é destruindo a prosperidade que gera a riqueza.

Existe, no entanto, uma outra forma de entender a pobreza, que é desenvolver um conceito absoluto da mesma. Ou seja, enumerar uma série de atributos do bem estar que estão razoavelmente bem distribuídos entre os membros numa dada sociedade, mas que não são acessíveis a todos.

Por exemplo, é um hábito em nossa sociedade tomar banho pelo menos uma vez ao dia, por questões de higiene. Aqueles que não possuem os recursos necessários para o banho diário podem ser considerados pobres. Normalmente usamos uma roupa diferente por dia, e as lavamos antes de as usarmos novamente. Mas nem todos podem fazer isso. A grande maioria da população tem acesso à energia elétrica, o que a torna capaz de utilizar uma série de utensílios domésticos como geladeira, televisão, computador, etc. Mas aqueles que não possuem acesso à energia elétrica ficam excluídos do uso desses bens.

Pode acontecer, e muitas vezes isso ocorre, de uma sociedade ser absolutamente mais pobre do que a outra, pelo fato de todos os membros daquela sociedade não possuírem acesso aos bens existentes nas sociedades mais prósperas. Há, portanto, dois tipos de desigualdade: uma desigualdade entre sociedades e uma desigualdade dentro da mesma sociedade. Se trabalharmos com os conceitos de pobreza relativa e absoluta, é possível que uma sociedade materialmente mais desenvolvida não possua nenhum pobre absoluto mas, pelo fato de persistir a desigualdade de riquezas, a pobreza relativa se perpetue, podendo até mesmo aumentar.

Há uma grande diferença entre combater a pobreza relativa e a pobreza absoluta. Para combater a pobreza absoluta, a sociedade possui um objetivo, normalmente negativo e, dessa forma, a sua ação positiva pode ser objetivamente avaliada. Por exemplo, a erradicação do analfabetismo pode ser verificada pela porcentagem da população que permanece analfabeta. O mesmo se pode dizer quanto à persistência de determinadas doenças, o acesso ao saneamento básico, a mortalidade infantil, capacidade de utilizar a energia elétrica, etc. Já o combate à pobreza relativa não possui um objetivo, pois é inerente de uma sociedade com divisão do trabalho relativamente desenvolvida. Sempre existirão pobres e ricos, a não ser que todos se tornem pobres.

É por isso que venho acompanhando com certa surpresa o debate que ocorre atualmente nos EUA, a saber, a preocupação com o aumento da desigualdade de renda, medida pelo índice Gini. Não é que tenha surgido, nos últimos anos, um problema social grave que possa ser relacionado com a pobreza. Não se discute nenhum índice específico de bem estar que tenha piorado nos EUA. Ao contrário, até mesmo os índices de violência americanos, considerados altos quando comparados aos de outros países desenvolvidos, estão em seus níveis mais baixos desde os anos 60. O que se está discutindo? Que algumas pessoas enriqueceram mais do que outras, sem que isso tenha afetado, de maneira direta, nenhum aspecto do bem estar dos outros que enriqueceram menos.

Será que a desigualdade de renda, pura e simples, importa tanto assim? Não deveríamos focar mais em erradicar certos problemas, como o analfabetismo, doenças diversas, falta de saneamento básico, que custam relativamente tão pouco para que sejam combatidos? Certamente esses gastos não provocariam uma mudança muito grande na pobreza relativa. Mas, sem dúvida, tiraria uma parte considerável da população da pobreza absoluta.

17 de dez de 2006

Mortalidade infantil no Brasil

Mortalidade infantil

Segundo a Wikipedia: "For the world, and for both Less Developed Countries (LDCs) and More Developed Countries (MDC) IMR declined significantly between 1960 and 2001. World infant mortality rate declined from 198 in 1960 to 83 in 2001."

Nota: mortes por 1000 nascimentos.
Uma resposta?

O blogueiro Claudio Avolio fez o seguinte comentário, muito interessante por sinal, no post anterior:

"Com a deterioração da qualidade dos serviços públicos (segurança, transporte, limpeza urbana, etc.), somente os bairros mais nobres, cujos moradores possuem maior influência política, mantiveram um mínimo de qualidade nesses serviços. Isso faz com que aqueles que viviam nos bairros mais modestos mas que tinham um condição econômica melhorzinha se esforçassem para se mudar para os bairros nobres. Esse surto de demanda explicaria o boom dos valores dos imóveis nas áreas nobres. Nos bairros mais modestos só ficou quem não podia sair de lá.

Com uma condição melhor para fazer negócios, os bares, restaurantes e comércio procuram se estabelecer nas áreas nobres o que faz com que essas áreas se tornem mais interessantes para o indivíduo de alta renda. E o ciclo virtuoso (ou vicioso) se mantém como no célebre caso tostines.

Fora isso, acho que não podemos deixar de lado o fator status, muito forte na nossa sociedade. Conheço muita gente que chega ao final do mês sem um tostão para morar em Ipanema ou Leblon.

Resumindo, acho que é um conjunto de fatores:

1) Menos piores serviços públicos básicos
2) Maior presença de comércio
3) Status

Mas essa opinião baseia-se apenas na observação do cotidiano do Rio de Janeiro."

Quem tiver outra experiência de cidade grande para contar, é bem vindo. E, dentre todos os serviços públicos listados, o mais importante, sem dúvida, é o de segurança. Se alguém tiver o trabalho de sobrepor os mapas de violência e distribuição geográfica por renda, a correlação é bastante forte. Muitas vezes a parte mais difícil de morar num bairro nobre não é nem comprar o imóvel, mas pagar o condomínio. É como se através do condomínio o indivíduo fosse obrigado a pagar para sustentar o fornecimento privado desse bem público(1) que é a segurança. Como não é possível excluir de maneira perfeita o consumo do bem público por parte de quem não o paga, esses serviços privados acabam por elevar o preço dos terrenos próximos(a busca por segurança é uma parte importante da demanda). Tanto que a expansão de áreas pobres violentas ao redor dos bairros que reúnem as pessoas de maior poder aquisitivo leva a uma desvalorização considerável desses imóveis.

Quanto ao status, ele acaba sendo um elemento diferenciador entre as pessoas que já moram nesses bairros mais conceituados. Por exemplo, eu moro num bairro de Niterói que possui um certo status. Mas eu não moro na praia desse bairro. Praia que se encontra, inclusive, bastante poluída e imprópria para o banho. Mesmo assim, se eu quiser caminhar e ver a praia, não demoro mais que 10 minutos para chegar nela. E o preço que se acresce pelo fato de se morar em frente à praia é bastante considerável. E eu tenho acesso aos mesmos serviços de comércio e lazer que essas pessoas (mesmo o meu acesso à praia é praticamente igual), os serviços públicos oferecidos não conseguem ser diferenciados. Não tenho dúvida que o status de morar naquela parte específica do bairro tem um peso enorme no preço final do imóvel. Se não for o caso, vai gostar assim de vista pro mar lá na...

(1)na definição de Paul Samuelson: [goods] which all enjoy in common in the sense that each individual's consumption of such a good leads to no subtractions from any other individual's consumption of that good. Por exemplo, se existe um serviço de segurança para um corredor de um andar, mesmo que a intenção seja proteger apenas um apartamento, os outros apartamentos acabam sendo protegidos. O desafio para garantir o fornecimento do bem público é saber se é possível cobrar de todos os que consomem aquele bem(a cobrança de condomínio parece solucionar esse problema).

Se não é possível excluir ninguém do consumo desses bens, então o chamamos de bem público puro. Por exemplo, se você protege as fronteiras de um país, todos os que pertencem àquele país se beneficiam desse serviço, não dá para excluir ninguém do seu consumo. Se os impostos fossem facultativos, algumas pessoas que consumiriram o bem público puro poderiam optar por não pagar por ele, já que os outros arcariam com todos os custos e elas consumiriam do mesmo jeito. Mas isso é outra discussão que não cabe aqui.