10 de fev de 2007

Pena de morte

Diante dos últimos acontecimentos que dispensam maiores apresentações, o tema da pena de morte voltou à tona. Reproduzo, neste espaço, um artigo que escrevi há 2 anos atrás. Não concordo mais com todas as colocações que fiz neste texto, particularmente com a minha análise superficial do pensamento lockeano, que na época me parecia trivialmente verdadeiro e que hoje considero altamente problemático, o que só me faz apreciar ainda mais o gênio deste grande inglês. Contudo, a minha oposição à pena de morte, bem como as razões que apresento, não se modificaram de maneira substancial. A única alteração que fiz do texto original foi reescrever alguns trechos para torná-los mais claros e menos redundantes. Não alterei nenhuma idéia que estava contida nele. Comentários são bem vindos.

"Pena de Morte

Um dos problemas mais graves que atingem atualmente nosso país é o da segurança pública. O Brasil é responsável por 10% dos homicídios que ocorrem no mundo, apesar de possuir menos de 3% da população mundial. Mudança nas leis, no modo de proceder da polícia e no funcionamento da justiça se fazem necessárias. E quando existe uma situação emergencial, pululam soluções simplistas e reducionistas, quase sempre de cunho moralista, que culpam a ausência de "certeza moral" ou algo do tipo pelo estado de coisas atual. Os governantes deveriam ser mais enérgicos no combate ao crime. Como se a questão se resolvesse simplesmente pela vontade de que o problema se solucione.

Várias ações são propostas, desde intervenção militar nos morros cariocas até a redução da maioridade, passando pela adoção da prisão perpétua e da pena de morte. Nesse artigo analisarei a justiça e a utilidade dessa última medida. Pois, se injusta, a pena de morte deve ser rejeitada, por mais útil que seja. E, se justa, não significa que necessariamente deva ser adotada, principalmente se suas conseqüências e desdobramentos forem tais que tragam mais desvantagens do que vantagens para o lado que a adota como prática. No caso, o Estado como provedor de segurança e justiça para a sociedade.

Antes de analisar a pena de morte como instrumento de segurança pública, creio que seja útil analisá-la como meio de segurança individual, para traçar posteriormente as diferenças existentes no uso da mesma nas duas esferas.

John Locke, no seu famoso livro "Segundo Tratado Sobre O Governo Civil", propõe um sistema jurídico baseado no chamado direito natural. E segundo tal sistema, o indivíduo possui autonomia sobre o seu corpo e propriedade, desde que respeite o direito alheio de proceder da mesma forma. Existem, no entanto, situações na qual o homem perde essa autonomia devido à ação de outrem, através por exemplo da fraude e do uso da força.

Quando é vítima de coerção, o homem perde a sua autonomia e está à mercê da vontade alheia. Ou seja, sua vida passa a pertencer ao outro, que pode fazer o que quiser com ela. É importante ressaltar esse ponto, muitas vezes esquecido em discussões envolvendo legítima defesa: a pessoa não sofre agressões enquanto obedecer ao outro (por vezes nem isso é o bastante); mas essa obediência existe devido a uma ameaça de retaliação, que constitui em si uma agressão. Quando o agressor diz "não quero te machucar", revela um desejo de não exercer a força, mas não a negação da possibilidade de usá-la pois, se assim fosse, não seria mais coerção. A pessoa oprimida pode, então, usar de todos os meios possíveis para recuperar sua autonomia.

Conclui-se então que a pena de morte é um meio justo de auto-defesa. Mas nem sempre é útil. Em certas situações sabemos ser improvável que o agressor cometa ações de conseqüências graves durante sua ação, ao passo que, reagindo, talvez estejamos correndo maiores riscos. Existe também a questão moral: agir implacavelmente contra um outro ser humano contribui para um enrijecimento do espírito e perda da sensibilidade.

Analisemos agora a pena de morte usada na esfera pública. A situação torna-se um pouco mais distinta. Não temos aqui a aplicação da pena de morte num tempo contíguo à situação. E isso provoca duas diferenças básicas: a percepçào da justiça da pena de morte não é tão clara, sendo necessária decidí-la por um processo burocrático. E a aplicação dessa pena, no caso, não evita diretamente crime algum, é acima de tudo punição.

O sistema judiciário pode errar: condena inocentes e inocenta culpados. A pena de morte, se não afeta os últimos, pode fazer uma diferença crucial para os primeiros. Pode-se argumentar que o mesmo ocorre para outras penas. No entanto, espera-se que os erros da justiça sejam corrigidos, o que não acontece quando a pena capital é aplicada. Alguns países, como os EUA, condenam a pessoa e estabelecem um prazo até o cumprimento da pena. Se esse adiamento possibilita maiores possibilidade de correção da justiça, ele não acaba, no entanto, com a impossibilidade de correção após a aplicação da pena. Além disso, o corredor da morte é uma tortura psicológica terrível para o acusado inocente, que fica dividido entre uma última esperança que pode se tornar vã e a aceitação de que sua situação é irreversível. A taxa de suicídio no corredor da morte americano é 10 vezes maior do que a taxa nacional e 6 vezes maior do que a dos prisioneiros no geral.

Um caso emblemárico ocorreu no estado de Illinois, que restabeleceu a pena capital em 1977. Desde então, 12 pessoas foram executadas e 13 inocentadas no corredor da morte. Tal fato levou o governador George H. Ryan a retirar todos os condenados do corredor da morte em janeiro de 2003.

A pior de todas as penas é antes de tudo desejo de vingança do que senso de justiça. E esse perigoso elemento pode levar o Estado ao uso político da mesma. Nem entro aqui na questão de possíveis perseguições de contrários políticos, mas no fato de um maior número de execuções poder garantir ao governante e ao partido a imagem de pessoas fortemente contrárias ao crime e "defensoras dos valores morais". O potencialmente injusto e incorrigível sistema vê então aumentado em grau os seus malefícios.

Alguns argumentam que a pena de morte fará com que os criminosos sintam-se inibidos em suas ações. Não existe nenhum estudo conclusivo a esse respeito, mas podemos dizer que a conexão não é tão óbvia, pois o criminoso acredita que não será pego. Se assim não fosse, ele não chegaria a cometer o crime.

Por último, em países de pouca tradição de respeito às liberdades individuais, o governo consegue, com maior facilidade, impor leis e medidas injustas. Todos os problemas relacionados à pena de morte se agravam quando adotados num país de democracia cambaleante como o Brasil. Nossa polícia está envolvida no uso diário e ostensivo da tortura, na prática de chacinas, etc. E nosso poder judiciário é facilmente corrompido por interesses privados. Não parece ser o melhor cenário para adoção de prática tão controversa e problemática."
A origem do dogmatismo(e do fundamentalismo também)

Muito se fala de dogmatismo e do seu irmão mais próximo, o fundamentalismo. Mas pouco se analisa a respeito. De maneira geral, tanto o dogmatismo quanto o fundamentalismo são condenados como atitudes intelectualmente contra-producentes. Viram até espécie de xingamento contra quem se recusa a pensar como a gente. Por isso mesmo um fundamentalista pode acusar outra pessoa de ser fundamentalista, sem maiores problemas.

O dogmático sempre argumenta, a seu favor, que as bases de qualquer pensamento não podem ser definidas de maneira racional(não podem ser objeto de discussão), tendo, portanto, que ser assumidas como verdades a partir das quais desenvolvemos nossas idéias. O fundamentalista segue mais ou menos a mesma linha: todo sistema de idéias se desenvolve a partir de certos fundamentos, que não podem ser questionados com o risco de todo o sistema desmoronar junto.

Posso surpreender muitos ao afirmar que tanto os dogmáticos quanto os fundamentalistas estão absolutamente certos. A diferença entre dogmáticos e não-dogmáticos não está no reconhecimento distinto da realidade, mas sim na disposição com que se encara a configuração do processo mental. Por exemplo, é verdade que as bases do pensamento não podem ser definidas racionalmente, mas isto não significa que só possamos raciocinar direito se partirmos de bases sólidas. Ao contrário, é o exercício da razão, a partir de qualquer base, que pode nos indicar se os nossos pressupostos são bons ou ruins. Em suma, não sabemos a qualidade de nossas suposições antes do uso que fazemos delas, só podemos avaliá-las após a tentativa de construirmos um sistema de pensamento com elas.

O fundamentalista também está correto em apontar que, questionado o cerne que sustenta um sistema de pensamento, todo o edifício desmorona. Mas quem disse que o objetivo da atividade mental deve ser a construção de teorias sólidas, que resistam a todo impacto? Uma coisa é o esforço de tentar construir uma teoria resistente aos possíveis ataques que ela sofrerá; outra é construir uma teoria de tal forma a resistir aos ataques que não foram previstos por quem a formulou.

Tanto o dogmatismo quanto o fundamentalismo são tentativas subjetivas de evitar o derradeiro teste e avaliação das teorias formuladas. Subjetivamente, somos dogmáticos em relação às teorias que formulamos, da mesma forma que defendemos que, questionados certos pontos das mesmas, elas serão destruídas. A questão é saber até que ponto estamos dispostos a admitir que nossas teorias podem ser superadas. Suponho que seja uma questão mais cultural, de existir um ambiente intelectual que force os indivíduos a se comportarem desta maneira e não de outra, do que propriamente uma questão de caráter.

Há, contudo, um argumento subjetivo que pode convencer o indivíduo a agir de forma aberta. Não há muito problema se acreditamos dogmaticamente e defendemos de maneira fundamentalista uma teoria que esteja certa. O problema surge quando defendemos de maneira dogmática uma teoria que está errada. Ou seja, a atitude dogmática, se indiferente quando estamos do lado certo, é fatal se estamos do lado errado, pois nos perpetua no erro. De qualquer forma, esta parece ser muito mais a lógica do ambiente do que propriamente um argumento que seja formulado por um indivíduo que, a partir desta idéia, cria deliberadamente um ambiente de discussão aberta. Esta idéia parece surgir somente enquanto reconhecimento de uma realidade que não foi criada, mas apenas percebida pelo homem.
Comentando os comentários

O post anterior gerou dois comentários que analiso agora:

João Luiz disse:

"Prezado Renato,

Sugiro os seguintes pontos:

Fim do serviço militar obrigatório;"

Realmente este é um ótimo ponto. O serviço militar obrigatório é problemático sob vários aspectos: a questão da liberdade individual, da eficiência deste modo de selecionar soldados e o fato de que sempre há excesso de contingente, então é muito mais simples que seja facultativo logo.

"Extinção do BNDES;"

Fundamental, esta. Mas acredito que pode entrar no tópico de que os mecanismos de mercado, como o lucro, devem funcionar livremente.

"Proibição de todo e qualquer subsídio, isenção fiscal ou uso de dinheiro público para financiar, incentivar ou fomentar atividades privadas, com fins lucrativos ou não."

Não sei, eu concordo com a parte de atividades privadas com fins lucrativos, mas não acho que seja, em tese, anti-liberal o financiamento estatal de certas atividades sem fins lucrativos. Também não acho que seja anti-liberal defender que o financiamento delas não deva existir, mas é uma proposta que parece se aproximar mais de um minarquismo estrito, que é uma das correntes do liberalismo, do que propriamente ser a base do pensamento liberal.

"Proibição da concessão de gratuidades ou quaisquer outros benefícios a estudantes, idosos, etc., especialmente em estabelecimentos e serviços privados."

Concordo quanto aos estabelecimentos privados, mas em relação a gestão pública, teríamos que verificar sobre o que trata tal benefício. Eu imagino que benefícios devam sempre se relacionar a algum tipo de incapacidade das pessoas em assumirem total responsabilidade sobre seus atos, seja esta incapacidade mental ou física. Agora, beneficiar alguém que esteja em pleno gozo dos seus direitos, sem limitações mentais ou físicas, me parece realmente abusivo.

"Privatização de todas as empresas estatais;"

Não acho tão urgente a privatização das empresas estatais, na verdade é mais interessante que o monopólio estatal seja quebrado. Por exemplo, se amanhã privatizarem os Correios, deveriam fazer de tal modo a permitir que qualquer um possa ofertar aquele serviço(podemos discutir se devemos exigir requisitos mínimos para operação, mas estas exigências não limitam, em tese, o número de ofertantes no mercado). A chamada privatização, como tem sido feita, melhora, sem dúvida, o serviço ofertado ao público, mas por outro lado é uma concessão estatal, ou seja, o monopólio de exploração do setor continua sendo do Estado, que o transfere a uma ou mais empresas privadas.

"Privatização da gestão de estradas, ferrovias, portos e aeroportos;"

Este ponto entra na proposta de quebrar os monopólios estatais.

"Transferência para a iniciativa privada da administração de todos os hospitais públicos, que passariam a cobrar do governo nos mesmos moldes dos planos de saúde."

Acho que deveríamos começar com um ponto mais pacífico, que é passar a administração dos hospitais federais para os estados. Seria importante, também, acabar com a intervenção estatal no conteúdo dos contratos dos planos de saúde.

"Implementação do sistema de vouchers na educação básica e secundária. Extinção de todas as universidades públicas."

Até onde conheço o sistema de vouchers, me parece uma ótima idéia.

Sobre as universidades, novamente o ponto mais pacífico é a transferência das universidades federais para a administração estadual. Novamente, um minarquista estrito não teria problemas em simplesmente defender o fim da intervenção do Estado na educação, mas certas correntes liberais podem defender que o Estado deva custear os estudos de estudantes mais pobres em universidades privadas, ou mesmo manter, em universidade pública, certos cursos que não são oferecidos pela iniciativa privada.

Como na questão da saúde, o conteúdo dos contratos de serviços educacionais deveria ser livre.

"Extinção do salário mínimo."

É uma boa medida. O salário mínimo pode ser um instrumento de elevação do nível médio dos salários, mas o faz da pior maneira possível: excluindo do mercado os trabalhadores menos produtivos e provocando desemprego compulsório. Mas já está contida no ponto que defende o livre funcionamento dos mecanismos de mercado, como o salário.

"Fim da contribuição sindical obrigatória;"

Eu não sei exatamente o que isto significa, mas se for o mesmo que acabar com a obrigatoriedade do trabalhador se filiar a um sindicato de sua atividade, eu apóio.

"Extinção da Justiça do Trabalho;" Poderia me explicar o motivo?


Bender disse:

"legalização do aborto"

Esta é uma discussão complicada, mas o primeiro ponto seria identificar os argumentos não-liberais que são usados na discussão. Os contrários à legalização não podem utilizar o argumento da imoralidade(tanto da mãe quanto do médico), visto que o liberalismo defende que não se pode legislar sobre atos morais que não afetam diretamente outra pessoa. Os favoráveis à legalização não podem utilizar o argumento de que, sob certas circunstâncias, o aborto seria uma escolha legítima, visto que a circunstância apenas ameniza uma pena, caso consideremos um determinado ato como crime, e não pode determinar se o ato em questão foi justo ou injusto.

Resta apenas, portanto, decidir se o feto é uma vida humana, logo deveria ser sujeito do direito, ou se é apenas uma vida humana em potencial, cabendo aos agentes privados decidirem se permitirão o seu desenvolvimento completo.

Há, basicamente, três posições sobre início da vida humana: a mesma começa no ato de fecundação, só começa depois de rompido o cordão umbilical, ou se inicia pelo mesmo critério que se determina seu fim, ou seja, o início da atividade cerebral. Eu tendo a apoiar esta última, mas novamente acho que é uma questão em aberto dentro do liberalismo, não sendo suficiente para determinar quem é liberal ou não.

"abertura das fronteiras para as pessoas, inclusive para trabalho"

Tendo a concordar com ela, mas não acho que qualquer um possa entrar em nosso território sem nos avisar que o está fazendo. Pois podem entrar, aqui, bandidos fugidos de outros países, ou pessoas que moram em áreas atingidas por doenças contagiosas. Devem existir, portanto, critérios que excluam certas pessoas de entrarem em nosso território, não por serem estrangeiras mas sim porque representam algum risco às pessoas que moram em nosso país.

"abolição dos impostos sobre circulação de bens (CPMF, ICMS, IOF)"

O que seria um imposto sobre circulação de bens?

"abolição do uso de papel-moeda (dinheiro eletrônico!)"

Poderia explicar melhor esta proposta?

"OBS: discordei de vários pontos do João Luiz, mas principalmente dos vouchers, do salário mínimo, e o mais importante, Justiça do Trabalho."

Discordância é sempre bem vinda, desde que alimente o debate civilizado e racional. Aliás, estejam livres para criticarem as minhas 10 propostas anteriores e mesmo os comentáriso feitos neste post, pois esta é uma agenda que ainda está em construção.

9 de fev de 2007

Agenda liberal em 10 pontos

Em vários posts anteriores eu tentei formular uma agenda liberal, primeiro tratando de assuntos referente à liberdade individual, depois analisando os problemas ligados à parte econômica. Lendo os textos antigos, percebi que as minhas propostas chegaram ao redondo número de 10. Seguem abaixo todas as propostas, novamente listadas. Espero receber novas sugestões para que consiga chegar a 20:

1-legalização da venda de todas as drogas;

2-fim da regulação do exercício de profissões que não colocam a vida de ninguém em risco;

3-revisão da atual legislação de calúnia e difamação, com intenção de evitar seu uso para chantagem financeira;

4-criação de um canal de denúncias dos abusos policiais, que devem sempre agir de acordo com a lei;

5-revisão do instituto da liminar, incorporando toda decisão judicial como modificação marginal do corpo legislativo, que deve criar e não destruir expectativas;

6
-reforma do sistema eleitoral, com a adoção do voto facultativo, distrital puro e cláusula de barreira com permissão para candidatos sem partido;

7-vincular o reajuste salarial dos políticos à variação real da renda per capita;

8
-
permitir o funcionamento dos mecanismos de mercado(flutuação de salários, lucros, preços);

9
-defesa incondicional do livre comércio, com abertura unilateral
de mercado;

10
-acabar com todos os monopólios estatais.

8 de fev de 2007

Fundação de novo partido

Já que o PFL retirou o liberalismo do seu nome, aproveito a deixa para anunciar a fundação do Partido Liberal. É verdade que é um partido apenas virtual, e cuja base é um blog chamado blogdopartidoliberal.blogspot.com . A princípio, só eu participo do blog, mas qualquer pessoa que também queira participar deste partido será bem vindo. A idéia é discutir as medidas implementadas por governos dos mais diversos partidos e níveis(federal, estadual e municipal), e os problemas relacionados com todos os poderes. A única exigência, para fazer parte do projeto, é escrever artigos propositivos e que explicitem os princípios liberais que estão sendo aplicados no caso em questão.
Minarquismo - parte II

A questão eleitoral não termina apenas em definir quais cargos devem ser eletivos nem a periodicidade das eleições. É preciso decidir, também, como se dará a proporcionalidade da representação: será por entidade federativa ou por população? Uma casa legislativa para as entidades federativas e outra para a população? Os estados serão divididos em distritos, ou um deputado poderá ser eleito por votos de todo o Estado? Ou será que pode existir um deputado nacional, votado em mais de um Estado? Qual sistema é preferível, presidencialista ou parlamentarista? O minarquismo não responde.

Uma questão aberta no minarquismo é saber se um país deve manter forças armadas regulares em tempos de paz. Não, esta não é uma questão trivial(e nem se confunde com a questão do serviço militar obrigatório, bem entendido). Se, por um lado, não faz sentido gastar recursos mantendo uma força militar que não será usada, por outro os recursos necessários para se constituir um exército regular são muito elevados e não podem ser alocados, com facilidade, em pouco tempo. Ou seja, em certo sentido é uma loucura não ter algum corpo, alguma infra-estrutura militar em tempos de paz, já que, se só será usada numa eventual guerra, não pode ser constituída durante a guerra. Mas fica em aberto saber o que constitui essa infra-estrutura militar mínima, tanto física quanto humana, a partir da qual se constitui a força militar que efetivamente combate. Sem esquecer, é claro, da questão referente à proteção das fronteiras.

Um assunto pouco comentado por libertários é o caso de heranças sem testamento. Herança com testamento é um caso simples: a soberania é toda de quem morre. Agora, o que fazer com heranças cujos herdeiros não foram explicitados? É preciso que exista um arranjo legal que defina, por ordem de preferência, quem deva receber estes bens. E esta ordem de preferência é perfeitamente discutível. O mesmo vale na decisão da divisão de bens para divórcio de casamentos cujo contrato não possui cláusula sobre o assunto.

7 de fev de 2007

Minarquismo - parte I

Socialistas, socialdemocratas, conservadores e mesmo alguns liberais consideram o minarquismo(a saber, a função do Estado é basicamente garantir a justiça, que possui caráter eminentemente negativo-a segurança garantida pelo Estado seria segurança contra atos injustos) como imcompatível com a democracia, a saber, não existiria valor para a democracia num regime estritamente minarquista. Ao contrário, o minarquismo seria mais compatível com uma espécie de ditadura.

Eu mesmo não sou minarquista - acho que uma série de possíveis intervenções estatais NÃO contrariam os princípios liberais. Mas acho um tremendo equívoco - que parte muitas vezes dos próprios minarquistas, é verdade - considerar que o minarquismo é apolítico.

Em primeiro lugar, o minarquismo nada diz sobre como selecionar quem vai ocupar os cargos governamentais. Ora, dentre os processos disponíveis está o da eleição. E, bem entendida, logo se vê que a democracia é o meio mais eficaz de sustentar um Estado minarquista. Mesmo escolhido o processo de eleições, é preciso decidir quais cargos governamentais serão eletivos, e a periodicidade da troca do indivíduo que o ocupa.

Mas o minarquismo é compatível com a existência do legislativo? Que leis precisam ser feitas, afinal? Bem se vê que não há um entendimento do que é o minarquismo. Obviamente, crianças e pessoas com problemas mentais não podem ser responsabilizadas por todos os seus atos - por isto mesmo é preciso estabelecer algum nível de tutela para estes indivíduos. Só neste caso são três problemas : primeiro, definir o que separa a criança de um adulto, uma pessoa sã de uma insana; segundo, atribuir graus de responsabilidade a crianças de idades diferentes, da mesma forma para os doentes mentais com graus de gravidade distintos; terceiro, estabelecer um critério objetivo, do mais preferível para o menos preferível, para o funcionamento dos mecanismos de tutela.

Mas não só. Não há concordância sobre os tipos de pena que devem ser aplicados aos respectivos crimes. Todos os crimes devem possuir a mesma pena? Deve existir prisão perpétua? A pena de morte pode ser legítima? Condicional é um mecanismo efetivo? Todo crime deve ser punido com prisão? Quando pode-se aplicar uma pena financeira ao invés do encarceramento?

Não pára por aí. Também não há consenso quanto a quem deve ser permitida a entrada no território nacional. Pode-se dizer que os minarquistas sejam contrários a certos critérios de seleção, mas será que é certo dizer que sejam contra TODO critério? Deve ser permitido a um assassino fugido de outro país entrar em nosso território nacional? Pessoas oriundas de regiões com grande incidência de doenças transmitidas pelo contato ou pelo ar? Ditadores africanos? Alguém pode se mudar para nosso país sem avisar? Dificilmente. Os critérios podem sim ser discutidos.

Pode até se achar que numa sociedade minarquista a política tenha uma dimensão muito menos relevante do que a atual, mas é um erro julgar que esta diminuição da sua importância signifique seu fim. Minarquismo não é anarco-capitalismo.

6 de fev de 2007

Livro que me faria feliz

The Development of the Laws of Exchange among Men and of the Consequent Rules of Human Action , de Hermann Heinrich Gossen, publicado em 1854 e primeira exposição formal do conceito de utilidade marginal. Ignorada em sua época, a obra só obteve reconhecimento tardio após a Revolução Marginalista liderada por Jevons, Walras e Menger. Na Amazon o livro se encontra esgotado. E agora?

5 de fev de 2007

Importante distinção

Há muito tenho observado que certo pensamento ferrenhamente anti-socialista tem sido encarado, por alguns socialistas e mesmo socialdemocratas, como representante típico da posição liberal. E não de qualquer posição liberal, mas justamente da posição mais extrema.

Mas o fato de alguém se opor de maneira estridente contra o socialismo não significa que esta mesma pessoa endosse a posição liberal. É preciso que se explicitem as razões pela qual esta se opõe ao socialismo. A forma estridente pode esconder, na verdade, a falta de razões e o excesso de sentimentos contrários à alternativa socialista.

O irracionalismo chega a tal ponto que até mesmo reformas liberais propostas por socialistas são rejeitadas por serem defendidas pelos socialistas. A verdade é que certo pensamento anti-socialista se baseia numa visão dos socialistas como grupo de eternos conspiradores, sempre com intenções maléficas não-reveladas. Esta forma de encarar a questão política não alimenta o debate, nem indica porque o socialismo seria uma alternativa ruim. É uma posição tipicamente da Guerra Fria, quando a alternativa socialista se confundia com a ingerência moscovita, ou seja, havia uma oposição de cunho nacionalista ao socialismo. O problema é que o mesmo nacionalismo também se opunha ao capitalismo das multinacionais.

O anti-socialismo liberal é uma postura conseqüente da adesão a certos princípios que a alternativa socialista viola por completo. Sem entender que princípios são estes, a postura anti-socialista pode muito bem passar a defender alternativas que, embora contrárias ao socialismo, também são anti-liberais.
A vantagem evolutiva das teorias herméticas

Uma teoria hermética, ao contrário de uma teoria aberta, possui a vantagem evolutiva de forçar aquele que a estuda a se aprofundar, cada vez mais, nela mesma, para que possa entendê-la. Já uma teoria aberta pode sempre ser julgada "de fora". Mesmo quem não conhece a teoria neoclássica com profundidade pode julgá-la como irrealista, e o modelo do homem racional como ausente de bases psicológicas que o sustentem. Este julgamento se aproxima, e muito, de uma boa descrição da teoria neoclássica, a diferença sendo maior no fato de que, para os "de fora", estas características são normalmente tidas como negativas, enquanto que os economistas normalmente consideram que este é um bom modelo para se trabalhar.

Ou seja, mesmo que não concordemos com o julgamento dos "de fora", dificilmente poderemos considerá-lo como "irracional" ou "sem sentido". Já no caso das teorias herméticas, a crítica é quase sempre desqualificada como fruto de uma "incompreensão" da teoria em questão. O crítico se vê, então, diante de duas alternativas: ou ignora por completo a teoria hermética e se concentra na crítica a teorias abertas, ou precisará aprender a como manipular os conceitos utilizado por aqueles teóricos. Mas, se não for reconhecido o caráter hermético daquela teoria, o estudioso se enterra cada vez mais nela e não consegue mais sair.

Bem se vê a diferença de fertilidade das teorias abertas e das teorias herméticas: enquanto as primeiras incentivam críticas racionais, a busca pelo aperfeiçoamento e o surgimento de novas teorias, as últimas apenas produzem comentários sobre elas mesmas. A obra de Martin Heidegger nunca produziu nada além do que outras obras que comentam a obra de Martin Heidegger.
Autores que envelheceram mal

Alguém ainda lê as obras não-matemáticas de Bertrand Russel?